Melancholia (2011)

“Melancholia” (2011)

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cavalo, seios, colisão

Há uma ideia de filme como criação colectiva, em que cada mente criativa (actor, cinematógrafo, escritor, realizador…) trazem as suas próprias visões ao resultado final, depois de serem revistas por um “produtor”, o subordinado de uma “indústria”. Depois há autores, um tipo, ou um número reduzido de mentes em cooperação, que criam tudo o que vemos. Mas depois há ainda filmes que são totalmente a cara do seu criador, por dentro e por fora, como se realmente estivessemos dentro da cabeça dele. Os filmes de Trier são desse tipo. Experiências assim podem mudar a nossa vida, ou ser profundamente aborrecidas, dependendo da capacidade de sedução da mente que estamos a entrar.

Sempre tive uma relação complicada com Lars von Trier. O homem tem capacidades nas ferramentas visuais puras do cinema, enquadramento, edição, timing. Ele estudou os mestres suficientemente bem para produzir experiências visuais válidas quase sempre. Ele entende o filme como uma experiência absoluta, do som ao diálogo, do enquadramento ao ritmo. E isso merece admiração, é tão raro encontrar um realizador que realmente se interesse por todas as dimensões do filme. Nunca me interessou muito a história do Dogma. E não me parece sequer que alguma vez Trier tenha feito um filme que obedecesse a essas premissas. E isso não é necessariamente mau.

Mas depois ele tem perversões que são simplesmente vulgares e aborrecidas. Ele é auto-cêntrico de uma forma que o faz assumir que cada pequena obsessão ou fobia que ele tenha merece ser contada, e que somos obrigados a apreciá-la. Ele tem esta ideia wagneriana de ser um mestre cujas excentricidades têm de ser toleradas em nome do génio que ele necessariamente espalha sempre que liga a câmara. Por isso é curioso que ele tenha tentado integrar Wagner neste filme. O pedaço que ele escolheu é a abertura de um trabalho realmente fracturante e transcendente. E isso expõe precisamente as fraquezas de Trier. O ponto mais forte dele e o que liga tudo o que vemos aqui é um pedaço do génio que ele pediu emprestado a Wagner. É muito interessante que a sequência inicial esteja tão relacionada com a Árvore da Vida de Malick, já que é claro que os nenhum filme terá sido influenciado pelo outro. É curioso pensar de onde surgirão estas modas.

Mas depois, o conceito é aborrecido. 2 planetas que vão colidir, 2 irmãs que colidem, o mundo ao redor delas a desfazer-se, como dano colateral. Os homens das vidas dessas mulheres que se supõe representarem papeis importantes, quando na verdade são apenas 2 peões, e totalmente ignorantes acerca do que está a acontecer. O personagem de Kiefer supostamente até “sabe” sobre estrelas, mas fica muito longe de realmente compreender a sua magia, reduzindo tudo a uma questão de números.

Tudo isto se localiza num local especial, isolado mas vivo, concreto mas indefinido. O sentido de lugar é importante, e bem explorado, e sublinhado pela forma como o cavalo nega atravessar a ponte.

A relação estranha entre Dunst e o seu cavalo tem uma sexualidade assumida que escapa a compreensão do seu noivo. E os seios de Dunst parece estar no topo das preocupações de Trier todo o tempo. Vejam o vestido da noiva, vejam como a câmara sempre foge para o decote dela, mesmo quando ele não deveria ser mais que um simples elemento do cenário. E vejam como a música e o climax existem no momento em que a vemos pela primeira vez totalmente nua, banhada em luar.

Admito que tudo isto está bem enquadrado pelas sequências inicial e final. Mas tudo o resto é simplesmente inconsistente, e toda a experiência em última análise é inútil. Mesmo que Trier, com toda a sua vontade de ser polémico, não o ache.

A minha opinião: 2/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve