Midnight in Paris (2011)

“Midnight in Paris”

IMDb

o profundo vazio

Talvez por ser um dos meios narrativos mais recentes, o cinema é provavelmente o mais poderoso que já inventamos. Certamente é aquele que ainda mexe mais facilmente nas cabeças das pessoas hoje em dia. Sabemos que contar histórias é provavelmente tão velho como a linguagem, e a linguagem, no nosso peculiar sentido humano é tão velha como a Humanidade em si. Alguns realizadores, do nada, permanentemente nos foram lembrando o pouco explorados que estão os processos narrativos em cinema. Méliès, Welles, Kurosawa, Hitchcock, Kar Wai, Park, Tarkovsky e uma meia dúzia mais, cada um nos deu avanços sem preço, novas formas de contar as coisas, novas formas de sentir. Mas poucos questionaram os limites da narrativa como a estrutura espiritual de um filme como Woody. Muitos acusam-no de se repetir. Sempre os mesmos pseudo-intelectuais, pessoas vazias a divagar, com vidas banais, nada sério a dizer ou fazer. Casamentos partidos, adultério, etc. Tudo isso é verdade porque são esses os elementos superficiais sobre os quais Woody constrói a maioria dos seus filmes. Mas em cada um deles, ele tenta algo que nunca tinha tentado antes, por vezes repetindo experiências de outros realizadores, outras vezes tentando coisas que ninguém tinha feito ainda. Ele falha muitas vezes, e acerta outras mais, mas sabemos que ele tenta sempre. E por esse motivo vou sempre querer ver filmes dele, feitos ou por fazer.

Aqui ele faz algo que superficialmente faz lembrar o seu celebrado Rosa Púrpura do Cairo. Mas isto é duma raça bastante diferente. O que ele tenta aqui é uma experiência complexa com mundos paralelos e inter-relacionados. Realidades paralelas onde (ou quando!) o que acontece numa afecta a outra. O filme começa com um presente reconhecível, e estabelece-se num outro nível de fantasia, e descobre a sua resolução ainda num outro nível, mais profundo. Cada camada está aninhada na anterior, todas elas baseadas em Paris, e os seus clichés em cada momento. Os mesmos espaços, o mesmo personagem, diferentes dinâmicas. Uma estrutura triangular sólida, onde os típicos elementos Woody Allen encontram um novo sítio para respirar.

No caminho encontramos Marion Cotillard, que já tínhamos visto em Inception, um filme estruturado de forma semlhante, sobre descobrirmos realidades enterradas profundamente no nível anterior, aí associadas à ideia de sonhos, e quem sabe, também neste filme tudo seja uma associação dos sonhos de Owen. Inception também baseava tudo em Paris, um dos locais mais filmados de sempre, e um que tem os seus clichés mais profundamente construídos pelos filmes. E também aí Marion era a amante inventada pelo subconsciente, cuja própria existência como personagem era questionável.

A esta altura, é perfeitamente assumido e natural que cada filme é de uma forma ou outra uma piscadela de olho às audiências, pela referência a outros filmes ou ao cinema em geral. A nova vaga francesa introduziu isso no vocabulário fílmico como prática comum, tão natural que quase não conseguimos passar sem ela agora. Woody começa aqui com um personagem que É um guionista a tentar entrar no mundo da ficção literária. Ele vai para Paris, onde temos uma montagem inicial da cidade e os seus sítios reconhecíveis, menos vigorosa mas na mesma linha do que tínhamos visto na sequência inicial de Manhattan. E ele coloca os seus níveis, as suas “idades de ouro” em momentos do tempo igualmente cinematográficos. Os intelectuais e celebridades artísticas estão ali mais que nada para colorir a paisagem humana, embora a piada sobre o filme de Buñuel seja excelente.

Se precisam encontrar outro significado auto-referencial nisto tudo, suponho que o próprio woody observa a classe alta intelectual e vazia de nova iorque e vê-a como o personagem de Sheen aqui: cheios de palavras mas em última análise vazios, aborrecidos, e profundamente desinteressantes. É como se ele tivesse passado a vida a tentar subir (ou descer) à sua idade de ouro pessoal, ele, o nostálgico das big bands de nova orleães (que ele usa na banda sonora inicial). E no final, o personagem de Owen acaba romanticamente, com o cliché ao máximo, a torre Eiffel, e com a rapariga igualmente nostálgica, a idade de ouro materializada no presente. Podemos entrar por aí e explorar isso. Eu gosto de contemplar a estrutura.

Entre as pessoas com quem fui ver o filme, houve alguma discussão sobre o porquê de o cartaz referenciar Van Gogh sem que ele apareça como personagem no filme. Eu diria, talvez de forma superficial, que Van Gogh tinha aspirações semelhantes para vários dos seus quadros, às que Woody tinha para este filme: pintar o que vê, e sobrepor-lhe a sua visão distorcida disso, muitas vezes atormentada, mas sempre baseada em algum mundo inexistente. Ao fazê-lo, ele deu-nos arte figurativa transcendente (no caso dele impulsionada por absinto e a sua própria loucura). As cores era as ferramentas narrativas de Vicent. A própria estrutura narrativa é a própria textura dos filmes de Woody.

A minha opinião: 3/5 mais um azulejo no mosaico de woody. Que se segue?

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve