Blue Valentine (2010)

“Blue Valentine” (2010)

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sexo angustiado

Um filme como este é a consequência positiva de muitas coisas que aconteceram no cinema nas últimas décadas. O cinema é, claro, uma arte bebé. O seu núcleo essencial é a narrativa visual. Contar histórias em si começou há muito tempo já. as possibilidades que a imagem em movimento abriu apenas agora estão a ser descobertas. Uma das maiores revoluções visuais foi a possibilidade de quebrar a narrativa, algo que na literatura tem sido feito recentemente. Citizen Kane não foi o melhor filme de Orson Welles nem perto disso, mas agitou as coisas e quebrou praticamente todas as regras que o precederam. Desde aí, tivemos múltiplas experiências com a quebra da narrativa (algo normalmente referido incorrectamente como narrativa “não linear”). Kurosawa, Wong Kar Wai fizeram desenvolvimentos valiosos depois de Kane. Welles excedeu-se a ele próprio várias vezes. Iñarritu ou Kaufman têm feito jogos importantes com o tema. Até Haggis fez alguma coisa que importa. Por isso para já, o livro está muito longe de estar escrito totalmente, mas está aberto já. É possível fazer trabalho convincente por mera extrapolação. Este filme é isso. É uma peça sólida de narrativa moderna, perfeitamente referenciada aos seus importantes predecessores, seguindo caminhos conhecidos, sem inovar realmente. Mas é bom ver o bem que estes princípios narrativos se solidificaram.

A coisa superlativa aqui é outra. As actuações são soberbas, de Williams e Gosling, sim. Eles superam-se, fazem algo que nunca os vi fazer nas suas carreiras em termos de comprometimento, pura paixão, entrega. Funciona, e isso é relativamente raro, por isso podemos celebrar este filme apenas por isso.

*spoilers* Mas é nas subtilezas da história, a sensibilidade dos seus cantos escuros, a ironia última das suas reviravoltas e consequências que nos agitam. Começamos com um drama relativamente normal sobre uma grávida precoce, forçada a abdicar de alguns sonhos, mas que acaba por encontrar uma felicidade estável com alguém (não o pai da criança) que a ama. Os anos passam, e a relação gera conflitos profundos, eles separam-se, acaba. Tudo isto é fragmentado e contado por pedaços. A escrita é sensível, isto é cinema sólido por si mesmo. Mas o que é profundamente doloroso é a forma como o sexo é inserido no drama tradicional e as suas regras simbólicas invertidas. Temos 2 momentos de sexo no ecran:

Um é quando a criança é concebida contra a vontade da mãe, e com a indiferença do pai. Sexo por trás, sem paixão, mecânico e, no momento em que é inserido na história, doloroso para nós porque sabemos ao que levará, sabemos a dor que vai causar no futuro marido dela, sabemos a importância que terá. Um excelente exemplo de como quebrar a narrativa consegue realçar o poder dramático da história.

O segundo momento é um acto não completado, tosco e em última análise frustrado, de sexo, no motel, quando pressentimos que o casal apaixonado está à beira de romper-se. Aqui temos sexo missionário, mas mostrado de uma forma dura, da forma que um bêbedo o sentiria, da forma que 2 pessoas desesperadas o fariam. Uma vez mais, aqui arrasta-se dolorosamente a história para o fim que, sentimos, não será feliz.

Este é um dos melhores usos de sexo visível que já vi. É essa a força deste filme.

O trailer é notável.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve