José e Pilar (2010)

“José e Pilar” (2010)

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caminhos cruzados

É tão difícil fazer um documentário cativante. O processo habitual é transformar os factos das histórias que estamos a contar numa linha narrativa coerente, mesmo que na realidade essa linha não seja tão clara. Isso dará ao espectador uma história, algo que ele possa seguir. Mas a forma como seguimos essa história é normalmente mais externa do que quando vemos ficção, porque no documentário não podemos ou não costumamos usar os mesmos truques para nos fazer entrar na coisa. Há também a opção de reconstituir algum material, se o tema é história. Isso é banal e preguiçoso.

Aqui temos algo realmente interessante. O filme mostra-nos excerptos incontáveis das vidas dos 2 protagonistas ao longo de mais ou menos 2 anos. O filme é apresentado como uma reportagem, mais do que um documentário, e isso significa que as imagens são aquilo que fazemos delas, as palavras aparecem aparentemente de forma solta. Nenhuma narrativa manipulada nos é apresentada. Ou assim parece.

Por baixo desta exibição aparentemente aleatória de imagens, há uma estrutura por camadas muito subtil: A vida do casal José/Pilar no período do filme associada à história do elefante do livro que Saramago está a escrever. Logo temos a história que este filme conta, associada à história maior da vida de Saramago, com todo o seu peso na literatura e cultura portuguesas, como vamos compreendendo nas entrelinhas em vários momentos da narrativa. Toda a ideia de viagem e encontro associada à história de amor de José e Pilar.

E em última análise, como o título denuncia, essa história é central. A ideia de um par de pessoas unido pela arte de um deles, que escolhe partilhá-la, permitir à outra metade ser uma parte dela. Viver como um, é a parte bonita da história. Fico feliz que eles tenham escolhido partilhar essa parte da história connosco, ao permitir-nos entrar nela.

A arte dele interessa. Ele é um humanista, tem ideias profundas e profundamente poderosas, e mudou a linguagem, inventou uma nova forma com a qual nos podemos expressar.

Há um momento em que a metáfora da viagem associada às vidas das pessoas é perfeita: na terra natal de Saramago, uma rua tem o nome dele, e outra que cruza essa tem o nome dela. Caminhos cruzados.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve