The Tree of Life (2011)

“The Tree of Life” (2011)

IMDb

Rayuela

Como é que vemos um filme assim? Temos de baixar todas as defesas. Temos de não nos permitirmos tentar encontrar um sentido para tudo o que vemos. Temos de receber tudo, e deixá-lo entrar, tão suavemento como o filme entra dinossauros, células, evolução planetária ou uma simples sala de uma família com problemas. Sem julgamentos, sem considerar nada a não ser a pura experiência de estar lá, onde quer que seja que o filme nos leve. Não procurem explicações, porque não houve razão racional para lá da intuição para as imagens serem como são.

Imagina um filme sobre tudo, com uma história remota que fala sobre todos os temas, em todos os tempos possíveis do mundo.

Imagina um filme sem princípio nem fim. Meta-narrativas circulares, onde podemos começar seja em que ponto (qualquer um) e podemos criar a narrativa interna que quisermos. Um céu de imagens (como o poster mosaico do filme) onde podemos fazer as nossas escolhas, e criar a história que quisermos. Ou podemos escolher enquadrar a história mais palpável do filme da forma que quisermos. Cada um é que sabe. O desafio é que temos de testar os limites da nossa própria imaginação para viver o filme na sua extensão total. Nada é predefinido. Vão onde quiserem.

Agora imagina que tudo isto é feito por alguém que passou a sua vida inteira em cinema a tentar contornar a ideia das velhas sobreposições narrativas. O mestre absoluto de narrativas não relacionadas, dos detalhes fora do ecran. O homem que filma mãos e campos de milho quando quer dizer amor. Que filma o universo para construir uma das expressões mais poderosas de intimidade, da solidão da mente, na história do cinema. Contraste.

Não sei se este é o melhor filme de sempre. Provavelmente é a experiência mais forte que recebi em primeira mão, enquanto era novo.

O que é? um filme na cabeça de Sean Penna? Uma história enquadrada no universo? parte dele? metáfora para ele?

Já ouvi bastante acerca do quanto este filme é uma espécie de 2001. Não me parece. Kubrick e Malick são 2 tipos diferentes, 2 abordagens diferentes, objectivos, processos, e resultados diferentes. Kubrick manipula a narrativa com perfeição. Obcessivo. O xadrez a inundar o cinema. Malick é a outra ponta do pau. Intuição visual pura, realçada pela bagagem intelectual de Malick. Simplesmente porque estes 2 realizadores não gostam de aparições públicas, e porque tanto este filme como 2001 têm planetas, isso não os aproxima.

Em 1963, Cortázar publicou um dos livros mais importantes do último século, Rayuela. O título deste comentário tem a ver com o título do livro. Penso que este filme e esse livro têm aspirações semelhantes. Traça o teu caminho, tens os capítulos, mas tens de montar uma ordem para eles.

A forma como isto é feito é com pura maestria em cada ferramenta da concepção fílmica. Cada imagem conta, cada plano foi filmado com competência e paixão, cada frame, cada movimento de câmara – Lubezki já trabalhou com Malick, Iñarritu, Cuarón. Cada colaboração adicionou imenso ao que estava a ser tentado. Ele consegue realmente ler as aspirações do realizador, e entrega nada menos do que mestria. A esta altura ele já entrou em suficientes projectos importantes para ser considerado um dos melhores cinematógrafos de sempre. A edição é de classe mundial. Cada corte, seja nos planos espaciais virtuais ou nas cenas de família, importam para a narrativa, seja ela qual for. O que leva isto para um novo nível é a forma como neste filme Malick supera o seu já incrível uso da música. A edição tem sempre presente de forma igual o peso das paisagens visuais e sonoras. Vejam, absorvam.

Este filme exige incrivelmente muito de nós, espectadores. Exige que sejamos uma pessoa diferente depois de o ver, que possamos mesmo ter de mudar a nossa abordagem genérica ao acto de ver filmes ou, pelo menos, que acomodemos em nós uma nova forma de ver filmes. Num nível básico tem a ver com as intuições de Malick. A outro nível, tem a ver com o que aparece no ecran. Mas em última análise, tem tudo a ver com a forma como tu te colocas no universo proposto.

A minha opinião: 5/5

Este comentário no IMDb

 

1 Response to “The Tree of Life (2011)”


  1. 1 Renato Rocha Agosto 1, 2011 às 5:58 pm

    Já viu A Árvore da Vida? Estou esperando muito esse filme.
    Gostei do seu review e aumentou minhas expectativas.

    Passa lá no meu blog depois, também escrevo sobre cinema:

    http://www.cinelogin.wordpress.com


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve