Angst essen Seele auf (1974)

“Angst essen Seele auf” (1974)

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espelhos, pessoas, angústias

Discutivelmente, ou nem tanto, o cinema foi a força motora na redefinição da alma da Alemanha ocidental, para a geração nascida durante ou imediatamente após a guerra. Estes tipos, que entraram na vida activa adulta já nos anos 60 sentiam muita coisa a acontecer na sua consciência colectiva: desde logo a herança do nazismo, que claramente não foi bem discutida (ou não foi de todo discutida), pelo contrário foi enterrada bem fundo, e é sensível sobretudo para um realizador bávaro, como Fassbinder. As pessoas da geração dele foram provavelmente os primeiros a dirigirem-se ao tema, convenientemente esquecido pelos seus pais; As coisas que se passavam naquele momento, a confrontação da Alemanha com a necessidade de globalização demográfica, a pressão da imigração, somada a uma sociedade conservadora do início dos anos 70, tradicionalmente cristã e que reagia às friccões e fracturas genuinamente abertas durante os anos 60. Sexo, moral, família. Tudo abanado e questionado. Mas mais importante e isto, para mim, é o mote que une o trabalho da maioria dos artistas alemães deste período, as interrogações profundas acerca de onde a Alemanha, antigo farol cultural da Europa, deveria encaixar-se agora que significava pouco, e que era desprezada de forma suspeitosa até pelos próprios alemães ocidentais. Wenders optou por aceitar a “americanização” em curso, tanto que construíu a sua imaginação cinematográfica ao redor de filmes americanos, nomeadamente aqueles de alguns emigrantes alemães em Hollywood. Fassbinder manteve-se totalmente alemão na sua abordagem, e totalmente agarrado a um sentido alemão de existência, mesmo quando arrasava cada um dos símbolos sob os quais havia crescido.

Isto não é um tema ligeiro, um país perdido nas suas próprias ilusões, incapaz de acreditar minimamente nelas, incapaz de acreditar também nas alternativas paliativas injectadas em umas poucas décadas, incapaz de forjar novas ilusões credíveis, está condenado à auto-destruição. Compreendo isso, como português de hoje, que vive sobre vestígios de ilusões imperiais perdidas, sob um sentido doloroso de inutilidade colectiva. É irónico que eu tivesse procurado agora Fassbinder, num momento em que a Alemanha parece estar determinada a suprimir a autonomia cultural dos países europeus mais fracos em função dum domínio económico. Lições que não se aprendem. Mas temos Fassbinder, e este filme é um documento angustiado e perfeito de tempos passados, e algo que podemos aprender aqui.

O homem filma quem ele é, em cada doloroso momento. Há uma cabeça muito especial a trabalhar aqui, muito perturbada, e podemos ver a sensação de desapontamento, a total falta de esperança e fé que atravessa as suas veias. Superficialmente, esta é a história de um amor relativamente impossível, condenado pela sociedade, que tem de ultrapassar o preconceito para existir. Os amantes improváveis enfrentam amigos, família e sociedade, e enfrentam-se no final a si mesmos e as suas próprias dúvidas. O amor aparentemente triunfa (com uma úlcera). Mas a vida é dolorosa no mundo de Fassbinder, e a felicidade é apenas a opção menos sofrível entre a miséria da existência. A auto-destruição parece ser a única forma válida para existir num torpor permanente. Além de Emmi, que sempre é sempre correcta, e nunca cede, todos os personagens deste filme, incluindo Ali, são maus, ou pelo menos terrivelmente fracos, incapazes de ultrapassar qualquer desafio, facilmente fugindo para o escapismo. Que espelho da vida de Fassbinder, do espírito de Fassbinder, da alma dele.

Se querem encontrar desafios visuais reais no cinema alemão deste período, terão de procurar Wenders ou Herzog. Em Wenders, encontrarão também um tipo de versão mainstream do como um alemão ocidental se deveria sentir numa Alemanha à Adenauer ideal. Mas é em Fassbinder que vão encontrar a angústia, os medos, as esperanças dos alemães do pós-guerra que, num contexto muito mais amplo, espelham as de uma maioria da Europa ocidental. Este filme é uma peça fantástica desse puzzle mental. Mas isto não é grande cinema, não acrescenta nada, é sensível, mesmo sublime por vezes, mas não rompe limites e muitas vezes não é mais do que competente. Não este filme, pelo menos para este espectador.

A câmara rodeia Ali, que a esta altura era o amante na vida real de Fassbinder. É a ele que a câmara acaricia, e mesmo que o personagem dele seja fraco, ele é o único cujas características físicas são exploradas e realçadas no filme. Fassbinder é um voyeur, verifiquem como ele enquadra os 2 momentos em que Ali está totalmente nu. O amor fora do ecran transpira para o filme. Isso é incrível.

A minha opinião: 3/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve