A Bela e o Paparazzo (2010)

“A Bela e o Paparazzo”

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hyde e hyde

É difícil para um português comentar filmes portugueses, mesmo que goste do filme. O problema é que o cinema português, independentemente do tipo de filme (em Portugal a questão é reduzida ao filme ser “comercial” ou “artístico”) existe quase sempre para consumo interno. Não há absolutamente nenhuma projecção internacional para filmes portugueses. Dois autores fazem um caminho fora, Pedro Costa e Oliveira, mas são criadores dirigidos a uma audiência específica e relativamente restrita, e mesmo se tivessem maior número de espectadores, isso ainda não seria minimamente suficiente para carregar o resto da produção com eles. Parte do problema parece ser a própria equação do problema. Muitos comentadores perdem tempo a balbuciar sobre como “cinema português”, considerado como entidade orgânica e autónoma, deveria ser feita: se para “vender” a tantas pessoas quanto possível ou para “agradar” aos críticos, que deverão decidir as suas qualidades. De acordo com esta dicotomia liderante e sem sentido, estes 2 aspectos são incompatíveis. Para aqueles que acreditam na versão “vender”, o “cinema americano” (outra expressão sem sentido dada a vastidão do que o conceito abarca) deveria guiar o caminho.

Porque é que importa referir isto ao comentar este filme? Porque, entre muitas características mais, o seu realizador é alguém que gasta uma quantidade enorme de tempo a dirigir-se a este problema. Não é um tema ligeiro. Acredito que o cinema pode realmente ser o meio abençoado para questionar temas de identidade colectiva, preocupações nacionais. Que melhor documento para compreender a forma como os governos americanos e soviéticos tentaram influenciar as mentes do seu público durante a guerra fria do que o cinema? Por isso obviamente que me preocupa que Portugal não tenha sido capaz de sustentar a renovação constante das narrativas sobre os nossos temas nacionais. E ainda mais que a maioria dos nossos filmes simplesmente não valham a pena ver.

Essa é a outra face do problema. O que se passa aqui não é que cada realizador escolha “ser” comercial ou “ser” um autor. Isso é fogo de artifício. O real problema, associado ao da distribuição horrível, é que os filmes simplesmente não são suficientemente bons para merecer a atenção de uma audiência nacional, muito menos de uma internacional. Admito que o público português em geral é muito mais duro com um filme português do que com um americano equivalente. Por outras palavras, as pessoas vão tolerar certas coisas num filme americano que simplesmente vão rejeitar num português. Mas mesmo que isso não seja justo, deveria fazer levantar a fasquia, e produzir uma reacção por parte dos cineastas portugueses.

No meio disto temos Vasconcelos. Que já anda por aqui há algum tempo. Com o seu esforço e mérito, conseguiu ir filmando ao longo dos anos. Não tanto como seria desejável para um realizador profissional numa indústria de filmes saudável, mas apesar de tudo já teve as suas chances. Que legado deixa ele? Que qualidades é que trouxe? Importou modelos, e tornou-os pior ao Não os adaptar nada, na maioria das vezes. O trabalho recente dele, dos últimos 12 anos, foi pegar num género americano atrás do outro, e repeti-lo com a menor alteração possível. Tão americano quanto possível. Cinema pelos números. Tentar atingir um reconhecimento fazendo exactamente o que outros já fizeram num sítio qualquer. Qual é o mérito disso? Não tem a ver com Onde alguém se vê no mundo dos filmes. Tem a ver com se o teu trabalho é o de um pirata ou o de um criador genuíno. Não é preciso ser um génio. Se vamos a Hollywood, ou recordamos a nova vaga francesa, 2 referências queridas deste realizador, a maioria dos seus protagonistas estão muito longe de ser génios. A maioria simplesmente se adapta às circunstâncias e rema com a maré. Mas é necessário competência, e honestidade nas adaptações também.

Este filme não é honeste, e por isso falha. Como português, não vejo nada aqui. Admito um filme com o mesmo tipo de audiências-alvo vindo do mercado americano, porque vou vê-lo como uma peça de um puzzle, um pedaço da sua indústria. E a maioria desses filmes, mesmo os piores, são mais competentes que este. Para fazer isto, ou seja, usar uma sempre rara oportunidade para fazer um filme português genuíno, independentemente de como se faça, e desperdiçar a chance fazendo isto, aborrece-me. Irrita. Não há discurso que compense a dor de ver este filme. cinema é mais ficção que vida, sempre o defendi. Mas ao mentir sobre a vida real, contém em si uma noção mais alargada de realidade. Isso é verdade sobre as comédias portuguesas dos anos 30 e sobretudo 40, aqueles filmes tão queridos deste autor, que os referencia aqui mesmo no início deste filme, com um personagem literalmente a ver um velho clássico português. Apesar de terem um patrocínio político, esses filmes cinicamente acabam retorcidos e tornam-se uma crítica ao seu próprio promotor, tornam-se propaganda e o seu reverso, um retrato riquíssimo das contradições e tensões desses dias. Onde é que temos isso aqui? Qual é o objectivo de entrar no mundo moderno e estúpido das novelas que dominam a televisão portuguesa e estupidificam (ainda mais) as pessoas só para produzir um filme que é tão vápido como essas novelas? Falar sobre os problemas apenas para se tornar mais uma parte do problema, esses têm sido os últimos desenvolvimentos da carreira deste realizador.

Normalmente, aborrece-me quando vejo um filme mau. Por vezes divirto-me com coisas paralelas relacionadas com o filme. Mas nada dói mais do que comentar assim um filme português.

A minha opinião: 1/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve