Biutiful (2010)

“Biutiful” (2010)

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Caras

*** este comentário pode conter spoilers ***

É sempre uma noite especial quando nos mexemos para ver o novo filme de um dos melhores realizadores do momento. Não vamos apenas ver algo que nunca tínhamos visto, feito por alguém cujo trabalho afecta a nossa alma, mas vamos também ver algo que pode ser a coisa mais actual na ainda recente tradição do cinema como a arte da narrativa visual. Iñarritu produz esse estado em mim. Algum do seu trabalho anterior mudou-me de formas que não consigo sequer compreender. Vou sempre querer ver o que ele tem para mim.

Aqui tínhamos um aspecto importante. Ele separou-se do seu colaborador de longa data, Arriaga. Aparentemente, as colaborações anteriores deles destruiu a relação pessoal deles. Imagino que a dureza e dor de produzir as narrativas densas e ricas da triologia que veio antes deste filme foi esgotante e esvaziou a relação deles. A ausência de Arriaga nota-se aqui. Tornamo-nos menos consciente da estrutura, menos entusiasmado pelo desenvolvimento do filme. Não há, aparentemente, uma estrutura maior que enquadre as vidas que seguimos. Arriaga dava aos filmes um sentido noir de destino, onde todos os personagens se sentavam. Bem, suponho que encontramos isso aqui, mas de uma forma mais bruta, menos assumida. Ninguém duvida que todos os personagens neste filme (mesmo os patrões chineses) vivem num mundo cujas regras não compreendem, e ainda menos controlam. Isso é a primeira coisa interessante aqui. Temos a cidade como o tabuleiro definido onde o jogo é jogado. O sentido de colocação (urbana) diz-nos que o jogo está a ser jogado, mas que nunca chegamos a ver nada mais alto que um peão. Penso que quando tomamos a história pelo que é, podemos comparar este filme com Ensaio sobre a Cegueira, pelo pessimismo, pela visão de um mundo sem esperança. A cidade, Barcelona, é mostrada com uma sujidade e escuridão que na verdade não está na sua aparência, ainda que algumas cenas (como os negros a fugirem da polícia com material falsificado) sejam na verdade uma parte da sua rotina. Mas nada do que vemos aqui existe num primeiro nível de observação, por isso não temos aqui a cidade de Gaudí, temos a cidade dos oprimidos, manipulados por um opressor desconhecido.

(spoilers aqui) Este mundo é complexo e enganador. Uxbal parece controlar os patrões chineses, mas sabemos que um deles está a ser manipulado pelo seu amante, que não é aceite pela família do primeiro pela sua homossexualidade. Maramba afoga as rejeições de Uxbal na cama do irmão dele, enquanto a sua loucura progressiva a afasta dos filhos dela. Mas Uxbal vai morrer e sabe-o, e até sabe o que está “no outro lado”. Ele está tão afogado no seu destino inevitável como os trabalhadores chineses que ele pensa que está a ajudar (até os matar!). Também Ige está afogada, que de algum modo sabe que não poderá sair de Barcelona e ter um futuro; ela está afogada no seu destino e o dinheiro não o pode mudar. E também as crianças de Uxbal, cujo destino depende da sorte e vontade daqueles que vão sendo responsáveis pela sua educação: o pai deles vai morrer, a mãe é instável, e apenas nos é sugerido que Ige se vai tornar a figura materna deles.

Mas tudo isto é apenas secundário comparado com o motivo real pelo qual penso que devíamos ver este filme: as caras. Toda a escuridão, todo o pus que sai doentiamente das feridas destas pessoas só interessa realmente porque está espelhado pelas caras “biutiful” de absolutamente todos os personagens. É isso que a incrível primeira cena nos dá: o encontro entre duas caras, a de Bardem (que actor ele se tornou!) e aquele que acabamos por descobrir que é o falecido pai dele. Reparem como os primeiros planos das caras são a chave de todas as respostas emocionais que damos a este filme. Reparem como é o sorriso destroçado de Mateo ou os olhares impotentes de Maramba que quebram o nosso coração. Reparem como essas caras são enquadradas por Iñarritu (e o seu incrível cinematógrafo!), sempre de forma diferente, de acordo com a cara de cada actor. Bardem normalmente a 3 quartos. Mas a cara que sempre vou lembrar é a de Ana. De acordo com o IMDb, este foi o primeiro filme dela, e se for o último, ainda vou ter motivos para me lembrar dela. Aposto que ela foi escolhida por causa do sorriso, de inocência desiludida, de infância destruída. Tão linda, tão triste. Tanta dor, num mundo tão caótico e noir. Isto é grande escrita, grande cinema. Quero descobrir como é que este filme se vai encaixar nos meus sonhos.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve