L’illusionniste (2010)

“L’illusionniste” (2010)

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o truque

Há algumas coisas estranhas que as leis e peculiaridades do mercado fazem acontecer de vez em quando. Este é um filme que pertence ao canto dos seguidores da animação, não a animação mainstream, na tradição dos grandes estúdios, mas a animação na tradição mais meditativa das chamadas belas artes. Animação como uma forma válida pela sua própria materialização. Por outras palavras, os desenhos valem apenas por existirem, podemos apreciar um filme assim pelo próprio sabor do seu próprio mundo, tanto como podemos apreciar um esquisso de Miguel Ângelo independentemente daquilo que ele esteja a mostrar. As características particulares de cada líder criativo passa quase inalterado para o écran onde vemos o filme. É isso que me faz procurar animação de autor de vez em quando: os mundos visuais são viscerais e directos, como se o filme estivesse a ser desenhado ao mesmo tempo que o vemos.

Chomet é um cineasta cujo mundo vale a pena visitar. A sua abordagem meditativa está totalmente alinhada com as narrativas que ele escolhe. Aqui essa meditação encontra um cenário perfeito nas colinas chuvosas de Edimburgo, uma cidade que nunca visitei mas que imagino que pode ser bastante mais dura do que a que vemos no filme. A narrativa começa com o mágico a vaguear por lugares diferentes, países diferentes, até encontrar a cidade que encaixa naquilo que o realizador quer contar.

A auto-referência é clara aqui: Chomet é o mágico. O sósia de Tati está para as pessoas que o rodeiam no filme como Chomet está para nós, espectadores. Pensam que o truque tem a ver com o coelho e o chapéu? Não, o truque tem a ver com quem o executa. Pensam que a história tem a ver com um guião de Tati? Não, a história tem a ver com o que Chomet faz com esse guião. O toque de mestre na auto-referência aqui é, claro, o momento em que o nosso mágico animado entra num teatro para ver uma projecção do Mon Oncle de Tati. A distância, metafórica e visual, entre a animação e o filme de acção real que temos no écran atesta a importância semiótica deste pedaço. O facto de vermos o Tati animado e real no mesmo enquadramento atesta a vontade que Chomet tinha de nos fazer comparar os dois.

Muito se tem falado sobre a ligação Tati, a forma como daí nasce este personagem animado, e como esse personagem emula Tati. Não me interessa muito essa ligação, pelo menos não nos termos que em geral têm sido colocados nisso. Certamente que Tati é uma referência para o personagem, e inspira os movimentos, mas o manipulador é Chomet, não Tati. O que vemos são os movimentos dele, não os de Tati. E o ritmo, e a narrativa visual, tudo isso pertence ao mundo de Chomet. Mas somos levados a crer que vamos ver Tati a sair da campa. É esse o truque, é essa a ilusão.

A minha opinião: 4/5

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1 Response to “L’illusionniste (2010)”


  1. 1 Antonio Nahud Júnior Janeiro 22, 2011 às 10:05 pm

    Gostei do blog. Parabéns!

    Apareça na minha revista brasileira de cinema:

    http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve