O Último Voo do Flamingo (2010)

“O Último Voo do Flamingo” (2010)

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sem asas

Há uma sensação de transição permanente inerente a muitas culturas africanas. Apesar das violências obtusas que muçulmanos e cristãos foram infligindo sistematicamente sobre religiões nativas brilhantes, esses estados de mente transitórios são ainda palpáveis em África, se quiserem senti-los. Almas que oscilam entre os mortos e os vivos, e que pertencem a nenhum. Ligações puras com o ambiente, quero dizer o ambiente geográfico físico. Concepções originais de religião como uma ligação entre o Homem e o seu contexto (algo que os celtas trouxeram para a Ibéria e que sobreviveu pelos cristianismos gnósticos). A relação da África negra com a sua verdadeira espiritualidade é tão visceralmente poderosa como é subtil e despretensiosa. As coisas são como são, e todos são peças da maquinaria natural. Este deveria ter sido o primeiro nível deste filme.

Mia Couto tem como paixão encontrar uma identidade para o seu povo, enraizada nas manifestações genuínas que fluem por todo o território da sua nativa Moçambique. O que ele faz, na sua escrita, é colocar o coração de um verdadeiro poeta no meio da espiritualidade da terra. Ele é um observador, apaixonado e pouco neutro, mas ainda assim um observador. O que ele faz é re-escrever o infinito fluido de narrativas que são a matéria espiritual dos povos moçambicanos. Essas narrativas que nunca foram compreendidas ou acarinhadas pelos portugueses em geral (e ainda não são!). Por isso, a tarefa dele é uma das mais nobres que alguém pode ter: nas últimas décadas, ele (e não só) tem inventado o que significa ser um moçambicano, e um africano, hoje em dia, como se pode alguém sentir moçambicano depois do sangue, depois de todas as mestiçagens (no plural, como Mia gosta). Quase casualmente, enquanto ele (d)escreve uma alma possível para o seu país, ele reinventa a língua portuguesa para todo o mundo que a usa. Essa transgressão, esse sentido de reinvenção tranquila que tem Mia Couto deveria ter sido o segundo nível deste filme.

O terceiro nível teria de ser o refazer dessas narrativas refeitas que Mia Couto tem escrito e transportá-las para uma visão cinematográfica. Sim, cinema; eu sei que o cinema pode transportar-nos, qualquer pessoa que já tenha experimentado um filme profundamente sabe que o cinema pode mover-nos, quase literalmente, para mundos que não sabíamos que existiam. Mas temos de poder confiar nas pessoas que fizeram o filme, elas têm de conquistar-nos. Este filme tinha de fazer-nos levitar, quase como os 2 personagens no final.

Mas não. Eles confiam nas convenções, o pior tipo de convenções, as da televisão. Quem fez este filme assume que espiritual é o mesmo que pitoresco, que escolher um conjunto quase aleatório de palavras do livro é o mesmo que compreendê-lo. Somam-lhe um conjunto de paisagens de contexto, e já está. Não ha ideias reais sobre nada. As actuações são de uma mediocridade inacreditável, todo o tempo, com todos os actores. Entre todos, o italiano é o pior, porque ele não actua bem, e porque não pode confiar na língua para disfarçar isso.

Que desperdício, que pena. Espero que alguém venha a fazer este filme bem. Mia Couto, e Moçambique, merecem-no.

A minha opinião: 1/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve