Sunrise: A Song of Two Humans (1927)

“Sunrise: A Song of Two Humans” (1927)

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dois mundos

Os anos 20 foram uma época em que os filmes ainda estavam a ser definidos como arte, nas suas especificidades, nos seus limites (que até hoje continuam a ser desafiados). Penso que podemos ver a evolução de qualquer arte (na verdade a evolução de qualquer coisa) com duas perspectivas distintas. Podemos considerar que as coisas Tinham que acontecer como aconteceram; ou podemos considerar que o facto de estarmos onde estamos hoje é incidental, ou apenas o resultado de um conjunto de aspectos, mas que poderia ter seguido outros caminhos. Eu mantenho a segunda atitude. E por isso divirto-me muito a considerar as outras opções; como poderia ter ido? Arqueologia fílmica ajuda muito nisto.

Nos filmes, a “outra forma” poderia ter sido (e durante algum tempo foi) não centrar o meio na narrativa visual, mas apenas como algo puramente visual, não necessariamente como uma arte narrativa. Imagens em movimento, viscerais como a pintura nunca poderia ter alcançado. Foi isso que atraiu os pintores desde o início. Por isso é que se procuramos o trabalho de tipos como Man Ray (que começou como pintor, depois fotógrafo e por fim um realizador), veremos que ele negligencia o potencial narrativo do meio, e encara-o como uma nova forma de estar no mundo da imagem. Isso foi feito, a consideração do cinema como (outra) arte plástica. Mas nós não sabemos o que poderia ter sido feito mais porque o filme falado daria a supremacia aos contadores de histórias, e aquilo que hoje se chama “videoarte” e outros movimentos paralelos não me satisfaz, parece-me que se poderiam fazer coisas melhores.

Os anos 10 foram construídos pelos pioneiros. Os anos 30 já aconteceram na peugada do cinema moderno. Mas nos anos 20 tivemos os pintores e os contadores de histórias no mesmo barco, cada um explorando as suas próprias possibilidades. Os antigos vaudeville e artistas do teatro lideraram o negócio das histórias (Chaplin, Keaton… baseados em Hollywood). Os chamados expressionistas alemães mandaram no “negócio” da arte.

Por isso temos este filme, feito por um elemento da malta da arte, contaminado influenciado e contratado pelos tipos do teatro. Um equilíbrio entre contar histórias e o puro prazer de produzir imagens. Este filme terá para sempre de ser celebrado pela forma como Murnau faz a câmara mover-se, que revolução!, tão grande como a descoberta da montagem. Como uma “pintura” é tão bonita como poderíamos esperar de um artista alemão com estas influências a trabalhar para os tipos da indústria. Como uma história é aquilo que representa: tem a ver com um conjunto de oposições e dualidades: cidade-campo; sol-lua; estabilidade-agitação; calma-vício. Onde é que cada um de nós se encontra? Onde é que tu te revês? na agitação urbana frenética e surreal ou na tranquila contemplação da estabilidade, nas suas sombras e leveza, nos trovões luares e no nascer do sol? Para mim é esse o sentido deste filme hoje.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve