O Mistério da Estrada de Sintra (2007)

“O Mistério da Estrada de Sintra” (2007)

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sífilis

Comecemos com o livro. Nunca foi suposto aparecer como um livro, antes deveria ser seguido como uma sucessão de eventos ridículos, semana a semana (o filme deixa isso bem claro). Dentro dessa intenção específico, suponho que foi um sucesso, com um efeito “guerra dos mundos”, atirado para o meio das águas paradas da burguesia romântica na Lisboa de oitocentos. Funcionou porque se dirigia directamente à disputa intelectual entre o grupo progressista de Eça e a elite romântica mais velha. E funcionou porque se alimentava do desejo de escândalo dos endinheirados decadentes.

Mas reunido como um livro, arrasta-se. A escrita é muito menos lúcida do que praticamente qualquer coisa de ambos os autores, provavelmente porque os textos foram produzidos a um ritmo jornalístico. A história está mal equilibrada, apesar de eu não ter sentido que houvesse uma divergência entre os autores como o filme explora. Seja como for, qualquer coisa de Eça ou Ramalho é melhor do que este livro. Mas nós consideramo-lo pela história que o rodeia.

Depois temos este filme. Tal como o realizador/co-argumentista refere, não é a história do livro, é a história da história do livro. Livro/filme, dentro do filme. É interessante como princípio, e parece-me que este “mistério…” não poderia ter sido feito sem levar em consideração o enquadramento mais alargado do livro no seu contexto. Tem muita piada dentro desse contexto, mas é inútil sem ele. Por isso, o ponto de partida do filme é lúcido e interessante.

Mas depois, demasiadas liberdades são tomadas na adaptação, e quase nenhuma joga a favor de fazer a “história da história” mais adaptada às imaginações visuais modernas. Em muitos casos são simplesmente inúteis. A estratégia é realçar a relação pessoal entre Eça e Ramalho e transformá-la no combustível para a evolução da história. E isso é simplesmente telenovelesco. E a história dentro, que na verdade É uma telenovela nas suas intenções originais é levada tão a sério no filme que não conseguimos relaxar e rir-nos com ela como era suposto. Por isso o que começou como uma exploração inteligente de uma experiência portuguesa única, acaba por ser uma trapalhada total. Parece-me que o falhanço de tantas produções como esta devem-se a uma falta de auto-confiança das pessoas envolvidas. Porque não acreditam que o material usado é suficientemente bom para se segurar sozinho, eles desfiguram o próprio produto para que se torne mais “apelativo” para as “audiências”. Bem, estes filmes normalmente acabam por ser uma piada de si mesmos, tal como o livro aqui era uma piada sobre os românticos. E havia pistas muito interessantes na história sobre uma multiplicação de pontos de vista: basicamente havia vários personagens que agora sabemos serem fictícios a contarem uma versão, ou uma área diferente da história. isto seria material muito poderoso para um filme, nas mãos certas.

Para além disso, outro problema é a forma como produções como esta, em Portugal, são incrivelmente seccionadas em várias peças sem que uma única mente, ou grupo pequeno de pessoas, controle tudo. Nos extras do dvd, há um momento em que alguém comenta que recebia ficheiros pela internet com a banda sonora para tentar colar ao filme! Uma escala tão pequena de produção e não há um encontro pessoal para garantir que as coisas corram bem. James Cameron conseguiu dar-nos uma visão relativamente unificada numa produção que se espalhou por dezenas de países, e envolveu inúmeras pessoas que não se conheciam, mas aqui não o conseguiram fazer com um filme de baixo orçamento. E claro que isso afecta directamente o resultado. Por isso temos vários actores deslocados e, entre eles, a condessa é o caso mais insultuoso. É uma figura de cera, amorfa, até muda (é dobrada para que não ouçamos o sotaque brasileiro numa condessa portuguesa). Suponho que também é por isso que transformaram a Carmen numa cubana (?), ela que na história é uma Carmen de Bizet.

Ivo Canelas não tem demasiado talento, mas é apaixonado. Por isso merecia uma orientação melhor, por alguém que realmente soubesse como. Ele precisa de deixar aquela treta metódica toda, e começar a ser mais sincero. Esse é o método. Mas provavelmente para o fazer ele precisaria algo que nem Paixão da Costa nem Vasconcelos conseguem fazer. Orientação.

A minha opinião: 3/5

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1 Response to “O Mistério da Estrada de Sintra (2007)”


  1. 1 marcos Julho 3, 2010 às 11:52 pm

    eu acho que adaptar uma tão complexa como o livro de eça e ramalho não deve ser tarefa fácil! pelo menos o filme conta com atrizes bonitas como a giselle itiê e a linda e dona de olhos azuis que fulminam a alma: bruna di tullio!eu veria o filme só por causa dessas duas atrizes! nossa, como eu devo ter parecido uma pessoa superficial e só interessado em rostos femininos bonitos!


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