Agora (2009)

“Agora” (2009)

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metáforas, distâncias, elipses

O melhor deste filme é a própria escolha da história e do contexto. A mudança de mentalidades que aqui se apresenta e os eventos tumultuosos, com ou sem rigor histórico, servem como exemplo do que estava a acontecer. Basicamente o final de uma era, que significou a colocação da religião no cerne do poder político, social e cultural da sociedade. Por isso é bastante adequado que eles tenham desenvolvido a história em torno da ideia de cristãos que, dominam judeus e pagãos, sim, mas mais que isso, forçam Orestes (a “velha escola”) a jogar o novo jogo político, e apagarem Hipácia, a “última” pensadora livre (e mulher!).

Os espectadores que se interessam pela “verdade” histórica, seja isso o que for, deveriam considerar algumas coisas: não há suficientes factos comprovados para que possamos fazer uma descrição factual dos eventos e neste filme, especificamente, não deveríamos tomar as coisas pelo seu valor absoluto, mas considerá-las metáforas de algo. Os personagens representam alguma coisa no seu contexto. Tudo é uma metáfora, incluindo a destruição física da biblioteca. Biblioteca, a palavra, era usada para referenciar os livros, o conhecimento, não o espaço físico (que aliás não sabemos exactamente quando foi destruído se é que alguma vez houve apenas um edifício); e sem dúvida que isto é compreendido pelos escritores, que no entanto usam a ideia de um edifício ser destruído, mas apenas como metáfora. Esse edifício, que é relativamente interessante [1] (ainda que virtual) torna-se a peça central da metáfora, e a coisa mais rica na construção do filme, pela forma como joga com a ideia de distâncias. É tão simples como isto: primeiro, temos a “escola grega” que controla a biblioteca, e todos os outros estão fora. Depois os cristãos tomam o poder, expulsam os gregos e transformam a “biblioteca” em algo parecido com uma igreja. Os pensadores gregos restantes vão para a periferia da cidade. E o Ágora, centro da discussão social, torna-se o centro dos tumultos. Quem ganha a biblioteca, ganha o controle, mas o que decide essa posse é o que acontece no Ágora. E Hipácia acaba por seguir a sua pesquisa fora da cidade, uma marginal na nova ordem.

Há um certo interesse visual na recreação dos eventos, mas parece-me que havia muito mais intenções a este respeito por parte de Amenabar no que toca ao uso da câmara do que aquilo que a tecnologia lhe permitiu fazer. Os movimentos parecem mais mecânicos do que o que ele provavelmente quereria, porque ele não foi capaz de prever o mundo espacial tanto como queria.

E depois temos Hipácia, e o interessante sobre ela é a forma como temos nela algo comum nessa altura, ou seja, o uso da ciência, lógica, e matemática como um caminho para Deus, para a compreensão do universo. Na verdade esta atitude resistiu na idade média ocidental, disfarçada com vários nomes (gnosticismo, alquimia, esoterismo…). Esta mudança, física ou metafórica, para uma religião política foi certamente um dos maiores retrocessos na cultura ocidental.

[1] – O edifício tem uma abertura circular na cobertura e o efeito é uma versão aguada de um dos nossos melhores edifícios, o Panteão de Roma.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve