Elles (1997)

“Elles” (1997)

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performance e ritmo

Não sei quanto deste filme foi feito com consciência e quanto aconteceu nas costas do realizador. De outras experiências que já tive com filmes dele, nunca vi nada que me fizesse acreditar que eu poderia ver algo tão inteligente e sensível como o que temos neste filme. Mas é verdade que este filme é uma boa experiência, uma peça a qual foi dada espaço para respirar ao ritmo das actuações femininas.

O casting das 5 actrizes principais é a primeira grande coisa aqui. Todas elas estão associadas a um certo contexto cultural (europeu), e no mundo do filme, cada uma surge associada a esse tipo de personagem. Isso é usado na forma como o filme foi escrito, e parece-me que cada papel tinha em mente cada uma das senhoras que vemos. Para cada papel poderia haver 1 ou 2 outras actrizes aceitáveis, mas não mais.

A segunda coisa boa é a forma como é dada liberdade nas formas de actuação. Cada mulher domina as suas cenas, e submete os outros personagens (masculinos) ao seu próprio fôlego, ao seu ritmo e estilo de actuação, tanto como o personagem de Maura submete Joaquim de Almeida ao estilo de vida dela. A história joga com isto, já que todas estas mulheres são, ou tentam ser, senhoras da sua própria vida. Por isso há uma sobreposição desta vontade de viverem vidas livres às actuações segundo estilos diferentes, que correm livremente. Isto não foi, creio, intencional, mas sem dúvida que funciona.

Outra grande coisa, que prova o parágrafo acima, são as cenas em que várias destas mulheres actuam juntas e, notavelmente, aquela em que as 5, e só elas, actuam juntas na casa de Maura, e até fazem um filme juntas! Apreciei a auto-referência disto. Estas cenas, especialmente essa na casa de Maura, são fantásticas porque aparecem na tradição de Lumet ou Altman, de capturar o fôlego da performance de cada actriz. É-lhes permitido respirar e cada performance aparece contra as outras, por isso a riqueza da cena é a comparação que podemos fazer entre elas.

Eu diria que o ambiente geral pretendido para o filme está totalmente baseado no mundo de Almodóvar, daí a ligação Carmen Maura. Isto seria intencional, creio, e era um objectivo forte do realizador. Mas ele falhou aí, e ainda bem, porque se ele tivesse insistido demasiado nesse aspecto, ele poderia ter apagado o resto das coisas boas não intencionais. Mas a escrita é muito boa, auto-consciente e suporta totalmente as actrizes. Por isso temos dois mecanismos de escrita que enfocam a natureza teatral do filme:-uma das personagens é ela mesma uma actriz, por isso está a representar um actor. As actuações dela são pontos vitais para dois desenvolvimentos dramáticos no filme (a filha dela a vê-la ter sexo em palco e o ciúme dela pela amiga). -Carmen Maura filma as suas amigas a fazerem confissões para a câmara. Por isso elas são enquadradas ostensivamente, e colocadas a falar directamente para a câmara, ou seja, para nós. Muito bom truque.

Lisboa é apenas um postal aqui.

A minha opinião: 4/5, deviam ver este.

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve