Bakjwi (2009)

“Bakjwi” /Thirst (2009)

Fantasporto 2010

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Pés

Por vezes, o pós-visionamento de um filme pode ser afectado por aquilo que vemos no entretanto. Com pós-visionamento estou a falar daquilo que pensamos sobre o filme nas horas, dias, semanas, depois de o vermos.

Queria muito ver este filme. O novo filme de um dos meus realizadores favoritos a trabalhar hoje. Wook Park impressiona. Ele é mestre do vocabulário visual que usa, tendo mesmo adicionado novos termos a esse vocabulário. E é um contador de histórias impressionante, o que no nosso mundo contemporâneo do cinema significa que ele se interessa (pelo menos) tanto pela história que está a contar como pela forma que ele vai escolher para nos dar essa história.

Mas no entretanto, eu embarquei num novo capítulo da minha busca pessoal para explorar Orson Welles. Ele fascina-me, impressiona, muda-nos. E para além de ser também o mestro do seu próprio reino visual, ele é um dos melhores manipuladores de narrativas de sempre e, por isso, um contador de histórias insuperável. Welles e Park são de mundos diferentes, contudo. Onde Welles projecta do seu interior, para o mundo, Park projecta-se sobre os seus filmes. Ele molda esses filmes de acordo com a intuição, enquanto Welles intui o filme dentro dele. Que eu tenha sido capaz de perceber isto já recompensou a minha reflexão.

Agora em relação a este Thirst. Park está entre fases. Ele próprio o admite. Depois da sua recompensadora e transcendente triologia da vingança, ele agora está a procurar algo novo, algumas novas formas que possa explorar, algumas novas molduras que ele possa criar. Por isso vou considerar que este e o filme anterior dele são peças experimentais, onde ele espera encontrar um filão que valha a pena seguir. Assumo que deve ter sido mentalmente fatigante trabalhar com tanta intensidade em filmes tão intensos como os da triologia, especialmente Oldboy, um filme muito importante.

Por isso ele deriva para algo que na base podemos chamar romance. Mas a um nível cinematográfico, creio que o que Park está a fazer é outra vez a jogar com as (pre)concepções que as audiências terão, e puxar-lhes o tapete no momento em que se sintam suficientemente confortáveis. Agora mesmo ele joga com o filme romântico e, neste caso, com o filme de vampiros.

Este filme, contudo, é um falhanço relativo. As cordas deste mestre de marionetas não são tão bem puxadas como em Oldboy. Aí o truque era esconder-nos que éramos nós quem estava a ser manipulado, ao mostrar ostensivamente a manipulação do personagem principal. Pensávamos que sabíamos tudo o que ia acontecer. Funcionava porque os mecanismos estavam escondidos, o manipulador não se revelava até ao momento exactamente necessário para destruir as nossas convicções. Aqui percebemos tudo demasiado cedo. Suponho que as pistas de comédia que vemos, misturadas com o romance, e o tema vampiro, são exagerados, e revelam a estrutura do filme em demasia.

Para lá disso, sinto que a intenção era tornar os pedaços sangrentos numa paródia do género vampiro, e contrastar isso com uma história de amor subtil, mas realmente interessante, uma que nasce de sensibilidades diferentes das minhas ocidentais, mas que podem ser reconhecidas universalmente.

É excelente fazer isto, seguir a carreira de um mestre enquanto ela ainda tem capítulos por escrever. Bem, também a do Orson tem, mas os tijolos dele já estão construídos. Aqui temos um novo tijolo para suportar a visão única de Park. Espero que ele consiga ir longe nesta nova fase.

Ah, há uma pequena sequência com pés. Os pés nus da rapariga são levantados pelo vampiro que tira os sapatos e literalmente coloca os pés dela neles. vemos tudo isto desde a perspectiva dos pés, no chão. Lindo.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve