Braindead (1992)

“Braindead” (1992)

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ketchup reflexivo

O que motiva estes filmes de série b é, antes de tudo mais, pura paixão. Paixão pela concretização deles, paixão no processo, o de inventar formas simples e baratas de representar ideias loucas. Parece-me que é aí que o enamoramento pelo gore começa, no como representar adereços que obviamente não podem ser reais. No início, tudo isto pode realmente ter nascido da frustração de querer fazer um filme sem ter o orçamento para isso. Mais tarde, o aspecto barato desses filmes criou uma base de fãs, e uma tendência. Por isso, da mesma forma que alguns tipos hoje em dia (incluindo eu) filmam super8 porque querem o grão, o aspecto, e um processo obsoleto na idade do vídeo, também muitos realizadores procuravam (e ainda procuram!) o estilo série b, porque adoravam os antigos, queriam apaixonadamente fazer um filme, e não tinham dinheiro suficiente para isso.

Eu vi este Braindead, em sessão dupla com o brilhante Re-animator. Juntos, estes dois filmes, mais o ambiente de festival na sala onde os vi, deram-me uma das minhas noites de cinema mais divertidas de sempre. Uma dessas em que ver um filme tornou-se tanto uma actividade colectiva como o próprio processo de o fazer. Risos colectivos, não planeados, espontâneos, uma sensação de relaxe diante das piadas. Tudo foi realmente memorável. Por isso suponho que o espírito dos criadores dos filmes foi totalmente transposto para a audiência naquela sala, eu incluido. significa que ambos os filmes funcionam.

Há, no entanto, algumas coisas interessantes a considerar: este filme é de uma série b consciente, ou seja, quem o fez sabia que estavam deliberadamente a fazer um filme temático, de aspecto barato. Isto foi em 1992, por isso faziam-no para audiências que a essa altura já estavam desabituadas da pobreza que seria tolerável quando, digamos, Corman, ou mesmo Ed Wood, faziam filmes. Por isso, desde o início que os cineastas estão a pistar o olho ao estilo que emulam, eles planeiam piadas baseadas no efeito que sabem que terão nas audiências. É sobre essa base sólida que toda a (imensa) piada está. Isto não é do tipo “oh não temos dinheiro suficiente para todos estes efeitos, vamos tentar o melhor e ver o que sai”. Isto é mais do tipo “sim, vamos fazer uma coisa que parece falsa, bizarra, ketchup, as pessoas vão-se rir”. Por isso num certo sentido, Braindead, Re-animator, ou as séries Evil dead, fazem ao filme zombie de série b o que Leone fez ao western americano, ou Besson aos filmes de acção. Estes filmes colocam-se naquele mundo doce da ironia e auto-consciência. Muito bem. o resto, terão de ver, uma sinopse de um filme como este soaria totalmente ridícula, assim como a descrição de praticamente todas as cenas.

Ainda assim, realço dois pedaços: um é a primeira cena. Que grande cenário que usaram. Nunca estive na Nova Zelândia por isso não sei o difícil que foi encontrá-lo, ei se calhar até está em todos os guias turísticos. Mas realmente apreciei a forma como o Peter Jackson filmou a sequência, no meio daquelas rochas enormes.

As caras. A forma como ele filma os poucos planos de intimidade entre os personagens principais. Dá a sensação que usou grandes angulares, próximas das caras. Em todo o caso, ele conseguiu grandes momentos, de intimidade cinematográfica, e a câmara segura à mão permite-o. Surpreendentemente bom, no meio deste banho de sangue.

a stop motion com o rato macaco é incrível. E o padre ninja também! E a actuação facial de Timothy Balme.

o que não funcionou tão bem foi o controlo do arco maior do filme. Algumas sequências são demasiado extendidas, e num filme de zombies, demasiadas pernas e braços cortados tornam-se aborrecidos a determinada altura.

A minha opinião: 4/5

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2 Responses to “Braindead (1992)”


  1. 1 Victor Afonso Março 1, 2010 às 12:24 am

    Vi este filme há muitos anos numa velha cassete VHS. Fantástico.

  2. 2 ruiresende Março 5, 2010 às 12:06 am

    sim, é mesmo fantástico, realmente divertido, realmente sabe brincar com as referências que usa. bom gosto e bom humor, e totalmente cinéfilo.


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve