O Xangô de Baker Street (2001)

“O Xangô de Baker Street” (2001)

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comédia por camadas

Quando temos boa escrita, não é preciso muito mais para termos um bom filme. E este filme tem uma escrita excelente. Estou a falar dos diálogos, são perfeitos na forma como evocam a sociedade pequeno burguesa desprezível do Rio de Janeiro imperial, que na verdade espelha a mentalidade contemporânea de brasileiros (e portugueses!). Jô Soares é uma bom escritor de comédia, que aborda temas e contradições grotescas da sociedade, e refá-los sob a forma de caricaturas interessantes.

Ele não é um verdadeiro argumentista de cinema, e a sua grande experiência (e qualidade) é como escritor para televisão, que basicamente significa que ele escreve episódios, sem uma forma maior. Mas aqui esses episódios que ele escreveu no romance funcionam porque ele usou inteligentemente alguns poucos elementos na história que ligam tudo, e esses elementos são em si engraçados de uma forma indirecta, ou seja, se souberem algo sobre o Holmes, o Estripador e a Caipirinha, vão sorrir com isto.

Por isso tudo aqui é uma piada. Os “crimes” são uma caricatura, a história do Stradivarius é crítica social, o serial killer é engraçado, e as deduções intermináveis e inúteis do Sherlock são tão estranhas e ridículas como as próprias situações que ele investiga. Se Holmes era na origem uma caricatura de um certo tipo de forma ultra lógica de ver o mundo, então este Holmes é a caricatura de uma caricatura. Watson é o que é suposto ser. A ligação ao estripador é inteligente, e a voz off que narra tudo completa a ligação entre cada episódio cómico solto. O assassino escreve literalmente a história, este é sempre um truque confiável.

Uma nota importante é a forma como os realizadores investem o filme com um sentido de lugar. Porto, Portugal, a funcionar como o centro histórico do Rio no século XIX. Há em geral localizações interessantes, e uma em particular; a livraria, é um grande espaço. É realmente uma livraria, localizada no centro do Porto. Tem umas escadas incríveis em serpente bicéfala, que poderiam até ter sido melhor usadas, mas o espaço está cheio de um sentido romântico e eclético. Tem um ar de mistério. Na verdade poderá até ter sido usada para modelar alguns cenários Harry Potter (Rawling viveu no Porto). Apreciei as escolhas.

A minha opinião: 4/5 vejam este.

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2 Responses to “O Xangô de Baker Street (2001)”


  1. 1 Le Fevereiro 27, 2010 às 1:25 am

    Olá! Gostei muito do seu site e também adoro cinema!! Com certeza, o Xangô de Baker Street é um ótimo filme, assim como o livro. É surpreendente, envolvente e divertido! No primeiro post da página, quando vc fala de filmes B, eu me lembrei de Casablanca: sabia que esta joia da sétima arte já foi considerado um filme da pior qualidade? Passe no meu blog também!
    Abraços,
    Le ^_^

  2. 2 ruiresende Março 5, 2010 às 12:54 am

    obrigado pelo comentário.

    há vários exemplos de filmes que se vão renovando na memória das audiências, seja por aspectos simbólicos, como o Casablanca, seja por motivos cinematográficos (como por exemplo o Blade Runner). Infelizmente, embora não me pareça que o Xangô possa vir algum dia a tornar-se um clássico (nem acho que o devesse), merecia ter tido melhor distribuição, desde o início.


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