Peur sur la ville (1975)

“Peur sur la ville” (1975)

IMDb

Popeye vai para Paris

Há uma relação muito interessante entre os cinemas americano e francês dos anos 60/70. Todos sabemos que começou com os tipos da nova vaga, primeiro como críticos, liderados pelo notável Bazin. Eles foram muito bons na forma como colocaram mestres não reconhecidos, apenas considerados como artesãos competentes, no seu devido lugar; Hawks, Ray, Hitchcock (?). Depois como realizadores, e foi aí que as coisas aqueceram. Godard, o mais radical, levou-nos para um mundo auto-referenciado de citações cinematográficas. Belmondo era o personagem central dessa representação Acossada. Curiosamente, ao citar os americanos, os franceses lideraram as modas dos anos 60, e levaram os americanos a ter de segui-los. Mas parece-me que a revolução francesa era mais pobre do que inicialmente prometia (aliás como muitas revoluções francesas!), e depois da excitação de termos filmes explicitamente sobre filmes, o entusiasmo desvaneceu-se. Por isso, muito antes do final dos anos 60, a nova vaga francesa estava, na sua essência, esgotada. Godard perdido a balbuciar tretas sobre idealismos ingénuos, Truffaut, Resnais, Demy… fazendo as suas obras pessoais, na verdade até mais interessantes (para mim) do que as originais, mas totalmente fora daquilo que inicialmente era o pretendido. Foi aí que alguns americanos reganharam a liderança, Coppola, Scorcese, Lucas, claro. Mas notavelmente, temos uma linha de filmes de acção que realmente são incríveis. Siegel, Frankenheimer, e o incrível Friedkin. Esses estabeleceram as regras do que temos aqui. Por isso este filme é muito curioso, e um produto interessante, nascido da relação simbiótica entre as tendências americana e francesa. Belmondo é a herança da nova vaga original, mesmo na sua (bizarra) caracterização (o cigarro, a postura dura), assim como nas citações cinematográficas explícitas, logo no início o pedaço Jean Gabin. Por isso, já é bom ver este filme se conhecerem o contexto, se conhecerem as referências.

Mas na raiz, e do ponto de vista dos investidores, o que temos é um produto de acção, que compra as tendências da acção daqueles dias e, para mim, faz um trabalho bastante bom. Tem um enredo, que é descartável, excepto pela premissa de termos dois polícias que trabalham juntos (bom-mau), e o ambiente geral da coisa. Um assassino qualquer, louco traumatizado, e um aspecto interessante. A história anuncia que a sua própria solução está no olho. Por isso o Minos é um tipo com um olho só, que até é descoberto quando Belmondo prova a ligação ao olho de vidro. A primeiríssima vez que o assassino aparece, perto do início, temos logo um olho no ecran, para nos mostrar isso. Por isso a pista é que teremos algo visual.

E essa premissa é materializada nas sequências de acção. Temos aqui algum material impressionante. O truque é extender as sequências de perseguição o máximo que for possível, mudando cenários, mudando meio de locomoção (a pé nos telhados, carros na cidade, metro/comboio). Há uma sequência específica que é impressionante. Muito bem concebida, bem integrada na cidade, tem momentos cuidadosamente enquadrados. É divertido vê-la, e ela acontece de forma visual. Normalmente não faço resumos de filmes, mas aqui parece-me que vale a pena observar a sequência de perto. *spoilers a partir daqui* Temos Belmondo que surpreende Minos, que tinha acabado de matar uma mulher. Ele persegue-o pelos telhados, troca de tiros, acrobacias nas coberturas, e alguns olhares deliciosos sobre a cidade, Paris. Depois temos uma transição para as galerias Lafayette, através de um armazém de bonecos expositores de roupa, em que os modelos são mesmo usados na cena. Temos o troço nas Lafayette, estamos agora em espaço público. O assassino chega a uma moto, Belmondo e o parceiro começam a perseguição num carro. Agora estamos na cidade, ao nível zero, muitos planos de contextualização (notavelmente a ópera de Paris). Apreciei como fizeram os tracking shots dentro do carro dos polícias. A esta altura há uma perseguição paralela que toma lugar, a um velho vilão que Belmondo há muito procura. Dois outros polícias seguem esse outro, enquanto Belmondo ainda persegue o assassino. O interessante aqui é que, se conhecem Paris, compreenderão através do que é dito que ambas as perseguições estão bastante perto. Por isso, a dada altura saberão porque Belmondo desiste de perseguir o assassino para começar a seguir a sua vingança pessoal. Ele faz isso, e isto permite-nos refrescar a perseguição, que por esta altura já deve durar há 10 minutos ou mais. Temos um pouco mais de cenas de carros, que nos ligam ao novo sujeito perseguido, e entramos no metro. Enterrado e elevado. Belmondo no comboio, túneis, ele entra, mata o tipo. Fim da história. É complexo, é muito bem pensado, com um bom sentido de posicionamento na cidade. Belmondo tem qualidades físicas, e faz as suas próprias cenas de duplo. Esta sequência toda claramente tinha como referência a semelhante perseguição de carros do French Connection. Essa era mais fresca, mas esta é mais complexa, uma extrapolação sobre a outra. Vale a pena ver.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb

0 Responses to “Peur sur la ville (1975)”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve