Guantanamera (1995)

“Guantanamera” (1995)

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a honestidade de uma visão

Se estudamos a evolução do pensamento em relação à organização social, necessariamente teremos de passar pela maior fractura no mundo do pós-2ªguerra. A cortina de ferro. é com cada um formar uma opinião em relação ao que cada lado tem para oferecer, e que lados dentro de cada lado apoias. Para ajudar a decidir, temos de confiar nas histórias contadas por quem viveu, na pele, os problemas e vantagens desses mundos. Estou a falar de pensadores sérioes, ou pessoas com histórias honestas para contar. Se aprofundamos a pesquisa do lado soviético da cortina, necessariamente vamos enfrentar o caso cubano. É uma história fascinante. E dentro dessa história, há alguns contadores de histórias honestos. Korda, e Gutierrez-Alea são os mais significativos, e trabalham com imagens. Mas enquanto Korda é importante fundamentalmente porque seguiu o processo, a revolução, Gutierrez esteve no início, e continuou a contar a sua honesta versão da realidade até à morte. Um pouco antes disso, fez este belo filme.

Assim, sabemos que vamos ver nos seus filmes a narrativa de alguém que nunca parou de questionar-se, e denunciar o que acreditava ser mau, tanto como denunciou os abusos pre-Castro, e tanto como tinha abraçado genuinamente a revolução. Esta é a sua visão, a meio dos anos 90. Desencantado, cínico, irónico. poucas vezes foi a road-trip tão metafórica, tão embebida na noção de viagem, pelo tempo, e não no espaço físico. Também podemos colocar o peso simbólico que quisermos no cadáver que eles transportam. Mas o que me interessa é o talento puro que Alea tinha como verdadeiro contador de histórias cinematográfico. Eu aposto que ele começava com imagens, soltas e disconexas, que queria passar. Tal como a do plano final deste filme. Depois disso ele trabalhava muito na construção de uma estrutura narrativa que pudesse competente, coerentemente e, digo eu, poeticamente, integrar todas as suas múltiplas visões. O engraçado deste filme é que a multiplicidade de visões da mesma mente está reflectida nas várias histórias que seguimos, cada uma com o seu tom, o seu ambiente. Temos a história telenovelesca que rodeia a vida engraçada de Mariano, muitas mulheres que significam sexo para ele, e um amor platónico, com dificuldades em consumar-se. Temos o crítico cínico do regime totalmente investido na estupidez de todo o negócio de funerais. A parte de inventar regras para poupar combustível, tudo isso representado pelo marido burocrata e frígido, um retrato triste de um sistema a esta altura (e já naquela altura) triste. E o mais pesado drama cai sobre a alma mais delicada entre os personagens vivos, o velho viúvo, marido de uma artista falecida, aquele que nunca deixa de preocupar-se com as pessoas, eventualmente o único verdadeiro amor na história (não sei se considero a professora uma apaixonada). Alea não poupa postura cínica, por isso o humor negro com o cadáver, perto do fim, realmente faz-nos sentir desconfortáveis. Todas estas linhas estão perfeitamente integradas por uma bem gerida viagem pela estrada, e uma boa adaptação de uma canção eterna, que por casualidade é um representante da alma cubana.

Este é como um filme italiano pos-moderno “doce”, mas melhor, porque é mais significativo.

A minha opinião: 4/5

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1 Response to “Guantanamera (1995)”


  1. 1 Jaime Piedade Valente Janeiro 26, 2010 às 1:09 pm

    A “honestidade de uma visão”… Mas, tratando-se de um filme (ou de qualquer outra obra de arte), a honestidade, a verdade, o rigor, etc., serão realmente importantes? Se faltarem isso rouba a beleza e as outras qualidades estéticas?


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve