Sherlock Holmes (2009)

“Sherlock Holmes” (2009)

IMDb

Actor, e sentido de Lugar

De certa forma, sempre evitei as representações em cinema ou tv de Sherlock Holmes. Acho o personagem fascinante, mas sempre me pareceu mais ligado à literatura, não ao cinema. As deduções, a forma como rodeia os mundos que investiga são um festim para mentes pensantes. Mesmo quando as deduções são exageradas (o que acontece bastante!9 não deixamos de sorrir à inteligência. Mais que isso, o personagem é uma peça perfeita que encaixa num mundo inteligente, irresistível e fascinante. Londres. Essa parte é visual, e um terreno sólido para colocar um mundo cinematográfico. Mas, ao contrário por exemplo de praticamente qualquer coisa de Agatha Christie, a inteligência de Doyle baseia-se em lógica pura dedutiva, não na mecânica do mundo. Reparem que os crimes de Christie têm muitas vezes que ver com a compreensão de como as coisas aconteceram, espacialmente (o crime no expresso oriente é o zénite disto). Suponho que Conan Doyle formou a sus mente antes do cinema ter algum tipo de impacto significativo na forma como as nossas mentes funcionam.

Por isso, o desafio para qualquer realizador e actor modernos que queiram actualizar Holmes, é tornar o personagem mais cinematográfico, mais atractivo. Vários truques são usados aqui, a maioria deles com sucesso, ainda que sejam directos. Um é o mais óbvio, tornar Holmes um personagem de acção (que na verdade até está no dna original do personagem, apesar das produções televisivas normalmente ignorarem isso). Isto poderia ser um falhanço e tornar esta versão ridícula, mas a esta altura há um sentido de ironia e lucidez nos filmes de Ritchie (desde Lock Stock) que lhe permitem colocar uma figura de acção do século xxi nas roupagens do Holmes, e tornar isso credível. Um truque menor que temos aqui é a associação da dedução com o próprio processo da luta física, que cria alguns momentos Matrix. Bem, são toleráveis, mas não particularmente interessantes. No grande arco, há boas sequências de acção, porque como qualquer acção competente hoje em dia, considera os elementos que rodeiam o espaço, e usa-os.

Mas há duas grandes coisas neste filme, que o levam a novos níveis de interesse.

Uma são as actuações. Jude Law é um tipo inteligente, um actor interessante cuja maior qualidade é a forma como ele se integra anonimamente no contexto que é suposto integrar. Ele torna-se deliberadamente uma peça da tapeçaria maior, e isso é realmente algo que devemos admirar. Não há muitos actores que possam gabar-se de fazer isto competentemente. Mas o rei deste jogo é Downey Jr. Ele é a peça de ouro neste puzzle de actualizar o Holmes. Certamente haverá um antes e um depois do personagem Holmes com este filme. O tipo é capaz de trabalhar as suas actuações em diferentes direcções, e cada uma delas tem uma ligação perfeita com o contexto. Por isso ele cede às necessidades de Ritchie, e introduz humor, ironia, e auto consciência no personagem, para o tornar próprio para as piscadelas de olho do realizador à acção irónica. Ele investe totalmente na criação de um personagem que se integre nas texturas do contexto, apesar de ser totalmente distinto dele. E enquanto o faz, ele coloca-nos em jogo, no jogo dele, por isso fazemos tudo com ele, lado a lado. Deduzimos, sorrimos, corremos, tudo com ele. Por isso, mesmo que o filme não tivesse outras qualidades, Downey Jr torná-lo-ia interessante porque, sozinho, ele consegue resolver um dos problemas mais básicos de todos os filmes: o de encontrar um canal que a audiência possa tranquilamente cruzar para entrar no jogo que alguém (o realizador) propõe. Ele é um dos melhores de sempre.

Mas há outra coisa formidável aqui, que suspeito que tem muito que ver com os diversos tipos envolvidos no processo de produção do filme. O resultado é um incrível sentido de Lugar. Londres, século XIX. Todas aquelas ruas sujas e lamacentas, toda a sujidade. O fascínio dos interiores, nomeadamente o laboratório do anão. Como os cenários são usados, nas cenas de acção. Tudo isso é competente, mais que competente. Está perfeitamente renderizado, cuidadosamente fotografado, soa artificial por vezes, mas isso é uma questão de gosto, creio. Mas o que para mim é realmente notável é o uso da ponte de Londres. Reparem como ela é anunciada, cedo no filme, com uma perspectiva semelhante à que teremos no final. Depois, a excelente sequência, quando Irene Adler atravessa o esgoto, sobre, e temos o plano muito aproximado dela num local não identificado. O ângulo abre, afastamo-nos, e estamos de repente no local da cena de luta final, que nesse aspecto específico é suficientemente interessante. Por isso o que temos é uma forma única de usar um local de contextualização, em vez de apenas mostrá-lo. Vamos lá a ver, quantos filmes é que já mostraram a torre Eiffel? inúmeros. Quantos é que realmente a usaram? não tantos assim. Esta é uma das melhores cidades de Londres que já vimos.

A minha opinião: 4/5

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1 Response to “Sherlock Holmes (2009)”


  1. 1 Eder Janeiro 15, 2010 às 5:40 pm

    Olá,
    Como vai?

    Meu nome é Eder Brito e trabalho na Divisão de Informação e Comunicação do Centro Cultural São Paulo (www.centrocultural.sp.gov.br), um dos principais equipamentos culturais públicos do país, subordinados a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

    Temos uma intensa programação de cinema e gostaríamos de estreitar contato com este blog, para que você possa participar de nossos eventos e conhecer melhor o espaço exclusivo que dedicamos à sétima arte.

    Aguardo seu contato através dos e-mails esbrito@prefeitura.sp.gov.br e edersantosbrito@ig.com.br

    Muito obrigado e até logo!


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