Body Double (1984)

“Body Double” (1984)

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olho cego

Há muito poucos temas que são mais adequados para o cinema do que para qualquer outro meio. Desses temas, o voyeurismo é certamente o que já foi mais explorado, e por isso tem mais soluções e experiências. Provavelmente isso acontece porque é sedutor, e permite diversas abordagens (ao contrário, por exemplo, da exploração espacial). Para além disso, o voyeurismo é rentável, e pode adequar-se a diferentes géneros. E é uma forma incrivelmente eficiente de colocar a audiência no ecran, porque independentemente de quem, o que seja o voyeur no filme, nós como espectadores tornamo-nos voyeurs. Por isso suponho que o facto de que o voyeurismo encaixe no cinema melhor que em qualquer outra forma de arte é um aspecto puramente técnico, relacionado com as próprias características do meio, mas o facto de gostarmos tanto do voyeurismo é porque somos também nós voyeurs por natureza.

Por tudo isto, fazer algo voyeur que seja ao mesmo tempo interessante e original pode ser algo bastante difícil. Mas de Palma tenta. Tenta muito, é suficientemente inteligente para aprender com cada uma das suas experiências, e é suficientemente arrojado para tentar coisas novas uma vez atingidas as coisas que ele pretendia em primeiro lugar. Ele tem, quanto a mim injustamente, a fama de copiar os mestres, observar o que eles fazem e fazer algo parecido. Não acho que ele faça isso, ou alguma vez tenha feito. Ele pega em conceitos que outros (normalmente grandes realizadores) usaram, e refaz esses conceitos com uma visão totalmente renovada (e nova!), muitas vezes um novo olho, literalmente. Por vezes ele ultrapassa os originais. Esta estratégia produziu um dos melhores filmes de sempre sobre construção narrativa e olho: Blow out, uma transformação de Antonioni. Porque esse filme foi um sucesso tão grande naquilo que atingiu, ele avançou para outras coisas.

Aqui ele tenta Hitchcock. Não o tipo da Janela Indiscreta, mais aquele que fez o Vertigo. Há um mundo, desconhecido para nós, desconhecido para o nosso representante no filme, o espectador. Ele constrói uma história, ele compreende o mundo, porque olha para ele. Apenas ao olhar. O envolvimento dele no desenvolvimento desse mundo aparece muito mais tarde no jogo, e não é assim tão importante. Ele tem o olho do detective. E o mundo que é suposto ele encontrar está colocado de forma a que ele o encontre, mesmo que nem ele nem nós saibamos isso ao início. Aqui entramos no território do noir, a colocação de elementos do mundo de tal forma que nós/ele temos necessariamente de os encontrar. Aqui o que gatilha o interesse do personagem é sexo, como acontece inúmeras vezes nas histórias voyeuristas directas.

de Palma sabe onde quer ir, ele experimenta sobre terreno firme. Mas não consegue ser bem sucedido aqui. Para lá da estrutura básica daquilo que ele pretendia fazer, quase tudo o resto joga contra a ideia. A câmara dele não é fluída, sensível, serpenteada como tinha sido no Blow out e como voltaria a ser nos anos 90. Há alguns planos e sequências muito bem concebidos, mas que apenas valem por si mesmos, sem integração numa estrutura maior. Melanie Griffith não funciona para mim. Preferia muito mais Karen Allen, especialmente quando Brian estava apaixonado, isso passava para o filme. Griffith é tremida e insegura. Ela é apenas adolescente, não com o encanto de uma Lolita, apenas e simplesmente ingénua, e isso tira-a da história. A banda sonora é horrível, uma das piores que já ouvir, pior que em muitos dos filmes série b aos quais este está estilisticamente ligado.

A minha opinião: 2/5 se conhecem de Palma suficientemente bem, vão apreciar o conceito geral aqui. Mas há melhores sítios para ver as ideias dele florescerem.

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1 Response to “Body Double (1984)”


  1. 1 Sam Janeiro 2, 2010 às 4:51 pm

    Caro 7 Olhares,

    Os Óscares de Marketing Cinematográfico, iniciativa que pretende nomear o melhor que se fez em publicidade de Cinema no ano de 2009, estão de regresso ao Keyzer Soze’s Place.

    Assim, convido o autor deste blog a expressar a sua opinião em http://sozekeyser.blogspot.com/2010/01/oscares-de-marketing-cinematografico-2.html.

    Desde já, apresento o meu profundo agradecimento na sua disponibilidade para participar nesta iniciativa.

    Cumprimentos cinéfilos!


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve