Avatar (2009)

“Avatar” (2009)

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Os marcos no cinema podem ser produtos fabricados, feitos à medida por corporações enormes, complexas e bem espalhadas, que lutam pelas atenções globais, e por vender um produto. Por isso agora temos este Avatar, que foi anunciado como o próximo grande evento, desde há vários meses, anos talvez. Apenas por isso, este é um produto revolucionário fabricado, não é o Citizen Kane, nem mesmo o Jazz Singer. Provavelmente é mais um E tudo o vento levou.

Mas há um filme aqui. E interessa vê-lo, para lá do embrulho do marketing e as opiniões descerebradas opostas das massas.

Há coisas fortes evidentes aqui. Uma é a forma como Cameron ultrapassou Zemeckis na forma como atinge um certo realismo que cresce de pessoas reais, abstraídos para a animação, apenas para nos serem devolvidas como personagens animados realistas; aquele jogo que Zemeckis tentou no Polar Express. Este filme ultrapassa o que tinha sido feito até agora. Não sei qual será o interesse futuro destas emulações da realidade através de meios puramente digitais, há assim tanto para ser explorado com interesse? Mas este filme é o ponto alto até agora.

Outra coisa é a forma como o filme cimenta o que Peter Jackson tinha feito com King Kong, e que vários filmes de acção trabalharam desde então: filmes de acção são peças espaciais hoje em dia. Isso já é um lugar comum, e será ainda mais no futuro. Um filme de grande escala de acção/épico/guerra(?) que não considere a ocupação espacial vai parecer datado e frágil. É aí que entra o interesse do 3d. Nas minhas poucas observações ao cinema em 3d já notei como as suas possibilidades maiores estão precisamente na forma como o 3d realça e cria espaço, espaço físico, construído com distâncias, onde a acção acontecerá. Por isso, a floresta de Pandora, está construída para ser explorada espacialmente. Desde o início, na cascata, a batalha para destruir a grande árvore, e basicamente toda a acção que toma lugar aí. O 3d é uma adição interessante para o que uma mente preocupada (ou grupo de mentes) pode fazer. Espero que se torne uma ferramenta utilizável pelas mentes de autor bonitas que há no mundo (quem me dera que Welles estivesse aqui para usá-la).

Os riscos foram reduzidos ao mínimo. A história é simplesmente clichá, reconhecível, e por isso comestível, sem se tornar gritante e insuportável. Aqui o filme segue a lógica de mercado de Selznick, a de promover produtos que são parecidos com algo já visto e aceite pelas audiências, apenas a uma escala maior e melhor promovidos.

Mas a rodear esta frágil história de bem-mal, há pedaços de reflexividade, conscientes ou sem intenção, que tornam o processo de reflectir sobre este filme delicioso. O aspecto mais visível, e assumido, é como o filme está para nós como o avatar no filme está para o seu dono. Nós escavamos a realidade do filme da mesma forma que os 3 utilizadores de avatares escavam a realidade de Pandora. Corpos falsos, realidades internas, como se descer cada nível fosse o equivalente a subir a grande árvore. Uma coisa que parece não intencional é quando consideramos os comentários no filme (sociais, ecológicos, morais) contra as contradições que o próprio filme exibe. Gira a roda do tipo bom-tipo mau. Por fim assume o “general americano” como o tipo sádico e destrutivo, que comete o mesmo tipo de crimes terroristas que um dia ele perseguia. Mas depois, as ferramentas que o filme usa para atingir o final feliz desejado, que respeita a “alternativa” da cultura nativa, são exactamente as ferramentas que os terroristas vencidos estavam a usar. O filme é em si mesmo uma história de bem-mal, não o contentor para conhecimentos acumulados, como a árvore das almas que colecciona as vidas de cada ser humano passado.

considerem a experiência visual. Não é radical mas é um ponto de situação das melhores ferramentas que temos hoje em dia, para explorar os mundos emergentes da animação digital e do 3d. Apreciem a autoreferência se quiserem, mas não se deixem guiar pelas opções pouco corajosas e inúteis.

A minha opinião: 3/5

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2 Responses to “Avatar (2009)”


  1. 1 Victor Afonso Dezembro 31, 2009 às 1:23 am

    Concordo com a tua análise, cujos pontos essenciais entroncam também na minha.

  2. 2 ruiresende Janeiro 1, 2010 às 4:03 pm

    também me pareceu que temos pontos de vista semelhantes, quando li a tua apreciação. obrigado por passares


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve