Rodrigo Leão, Coliseu do Porto, 28 Novembro 2009

Quem lê regularmente o que vou escrevendo sabe que raríssimas vezes escrevo coisas que não sejam comentários directos a filmes que vejo e que quando saio dessa fórmula que há 2 anos e meio venho usando, normalmente faço comentários relacionados com a própria vida do blogue, anotações editoriais de estatísticas, ou pequenas notas a efemérides que me interessam. Acontece que hoje, há apenas umas poucas horas, assisti a um concerto liderado por Rodrigo Leão, um dos compositores e músicos que mais me interessam actualmente. E resolvi escrever sobre o concerto, porque a música de RL tem tudo que ver com cinema. Já por uma vez escrevi, e sublinho agora que, apesar das experiências que já teve como compositor de música para curtas/séries/documentários, ele é ainda, até agora, o melhor compositor de cinema que nós Não temos. Vários elementos que me interessam:

1 – ambiente – em geral, a música tem a capacidade de estabelecer (e manter) um determinado ambiente, mesmo não seja essa a  intenção de quem a produz. Em cinema, o maior mérito que um compositor pode ter é conseguir determinar esse ambiente: humor, tensão, curiosidade – que se estende à noção de suspense. Parece simples ao explicar, mas é bastante complexo, definir todas as nuances daquilo que pretendemos que passe para a audiência. Depois, manter esse ambiente. Significa isto que a música precisa de um carácter, e depois precisa ser suficientemente bem explorada para manter esse carácter. Ora, segundo me parece, RL começa a concepção de cada pedaço de música precisamente pelo ambiente que pretende para ela. Precedido ou não pela existência de uma letra, parece-me que todo o desenvolviemento da peça segue a ideia desse ambiente pretendido (ou descoberto). Num cenário como a sala onde assisti ao espectáculo, é isso que retemos, é aí que entramos, num ambiente específico, com diferentes tonalidades. Não temos a força visual das imagens, mas temos a imagem da música que acontece à nossa frente. RL é um mestre desta definição ambiental, e por isso seria especialmente interessante vê-lo produzir consistentemente para cinema, associado a realizadores que compreendam o lugar da música num filme.

2 – classe – há uma ideia de perenidade, ou talvez eternidade, que prepassa determinada arte. Parece-me que o que é clássico é aquilo que se constrói seguindo um conjunto de regras que sabemos que funcionarão, seja em que contexto for, tempo, ou tipo de arte. Podemos recorrer a elas, porque a sua aplicação fiel dá-nos a liberdade para explorar livremente praticamente tudo o que quisermos. É um paradoxo interessante, a aplicação de regras clássicas dá-nos liberdade, assim como a intenção de quebrá-las nos obriga à criação de um número semelhante de regras para que a obra não se descontrole. Nada precisa de tantas regras como a irregularidade. Em todo o caso, RL é alguém que, sendo altamente experimental na exploração de ambientes, socorre-se de construções clássicas, na forma,  na harmonia. Ao mesmo tempo parece-me que ele é sobretudo um compositor intuitivo, e por isso original, e isto significa que faz o que sente que é preciso, e não o que já foi comprovadamente testado. Afinal, a classe é necessariamente atemporal e inovadora. Paradoxo?

3 – comunidade – eventualmente, em cinema ou em concerto, a música pode e consegue muitas vezes ser um factor agregador. Neste concerto a que assisti (que aliás foi o primeiro de RL que vi), o que ele faz é estabelecer um ambiente, e convidar-nos a participar dele. Há uma alegria da comunhão de determinados valores que, mesmo que não sejam explicados, todos percebemos. Não será tão forte e espontâneo como participar, por exemplo, na demolição do muro de Berlim. É uma sensação induzida, no final do concerto seremos todos tão amistosos ou odiosos como éramos antes (ou talvez não), mas toda a arte é manipulação. E o cinema, como a música de Rodrigo Leão, induz-nos a sensação de que fazemos parte de um grupo, o das pessoas que partilham o prazer de o ouvir, e seduz-nos a ver as imagens que motivam a música. Precisamos todos dos filmes que Não foram musicados por ele.

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4 Responses to “Rodrigo Leão, Coliseu do Porto, 28 Novembro 2009”


  1. 1 Pedro Godinho Ferreira Novembro 29, 2009 às 3:26 pm

    Um óptimo concerto sem dúvida. Apesar de não ser em ambiente de cinema este espectáculo foi como se estivessemos em pleno filme.

  2. 2 ruiresende Dezembro 3, 2009 às 1:41 am

    obrigado pelo comentário. Sim, é o que eu penso. Não vimos cinema ali, mas adivinhavam-se imagens por trás daquela música. é essa a magia do que Rodrigo Leão faz.

  3. 3 Slap_me_like_a_Diva Dezembro 7, 2009 às 6:57 pm

    Eu sempre assisti a concertos dele em contextos diferentes, salas muito pequenas quase “em cima dele”. Eu percebo e partilho de certa forma o que sentiste no concerto, no entanto, acho que estás um bocadinho confuso em relação a determinadas coisas que disseste. Em relação ao “ambiente” eu acredito que a música tem capacidade estabelecer comoção dentro do que chamas “ambiente”, mas essa experiência só é possível através de algo mais que música, mas pronto, não vou citar Heidegger. Para manter esse “ambiente” precisa de carácter? Acho que é mais de significado que te corresponda, só aí consegues continuar a estabelecer essa relação porque a compreendes. E depois, a eternidade não perpassa determinada arte mas toda a arte, caso contrário seria passível de consumo e sofreria da mesma patologia do zeitgeist, logo não seria arte. Eu acho que ele pretende oferecer uma espécie de amizade baseada em comoção. Que é precisamente o que toda a arte faz. E dizeres que ele é experimental e que o que faz não é testado é o maior paradoxo à face da Terra. Achas que não foi comprovado? Em relação ao fazer o que sente, concordo, acredito que ele se deixe guiar pela obra, mas aí reside o risco de toda a criação artística. Agora, achas que não foi experimentado? Ou comprovado como tu dizes… O meu Prof. de projecto diz que quem faz escolhas de lugares para repérage pela internet deveria ser aniquilado LOL. Eu acho que dizer que não foi comprovado é um pedacinho isso, mas pronto. Em cinema em concerto ou em qualquer coisa o factor que chamas agregação e comunidade é nem mais nem menos que geração de cultura, não te foi transcendente, o que descreveste no final, parece-me tão catártico quanto a tragédia grega! “…mas toda a arte é manipulação…” A arte não é manipulação! Acho que a música é um dos factores que te ajuda a proporcionar momentos de cinema, tal como escala e outros que tu deves saber bem melhor que eu. Só acho que a música dele te proporcionou o que precisavas, abraçou-te. Agora dizer que é ambiente de imagem parece-me discutível, se é para ti é porque fizeste um exercício de memória de algo que foi te exposto quando experienciaste a música e tornou os factos presentes, apesar de concordar que toda a arte seja uma experiência sinesteta e que todas têm correlação entre si. O facto da tua experiência ser válida ou não para mim é questão de crédito. Eu não sinto assim, para mim a música dele não é imagética, mas também, se duas pessoas pensassem da mesma maneira, quereria dizer que uma delas não pensava, por isso…

  4. 4 Sérgio Correia Dezembro 9, 2009 às 7:10 pm

    Eu acredito que tenhas conseguido “adivinhar” imagens ao ouvir a música. Tal também é possível a ouvir música clássica, nomeadamente Johann Sebastian Bach. Conseguimos não só adivinhar imagens como também espaços, e percorre-los. Criamos um ambiente imaginário de acordo com o que nos sugere a música. A imaginação e a memória são importantes nesse processo, é algo abstracto mas que sentimos como se fosse real.

    Abraço!

    Sérgio Correia


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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve