Les ventres (2009)

“Les ventres” (2009)

cinanima2009

Cinanima2009

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bach é singular, não serial

Este filme foi um falhanço enorme para mim, mas um interessante. Não é assim tão comum ver coisas assim, quando sentimos que vimos algo que ficou longe de me preencher, mas sabemos que o realizador queria fazer bem, e queria fazer algo ambicioso. Por isso, vou sempre preferir filmes como este em vez de trabalho copiado em série como muito do que vemos.

O filme está em território quase de terror. É um conto bem construído sobre como tudo o que é parte da nossa vida, neste caso a comida que consumimos, se vai tornando mais e mais artificial, até chegarmos ao ponto simulado de imaginarmos que nos estamos a comer a nós mesmos sem notarmos. Por isso temos um jogo curioso de escalas, em que o homem começa como comedor (de caracóis) até se tornar um canibal inconsciente. Pensem o que quiserem da metáfora, a mim não me interessa especialmente embora reconheça a validade do raciocínio. Mas é um bom tema dramático.

O que me interessou foi a música, a forma como foi deliberadamente cortada e integrada na narrativa. Ele escolheu Bach. Para mim, Bach é o zénite da música ocidental, para sempre insuperável na compreensão das possibilidades e no estudo dessas possibilidades, uma por uma, de uso de harmonia, ou melodia, ou ambos ao mesmo tempo. A peça que o realizador escolhe, o prelúdio nº2 do primeiro livro de prelúdios e fugas, é parte de um dos trabalhos mais importantes de sempre da história da música. É aí que Bach se endereça às suas ideias de sobreposições de linhas melódicas que funcionam tanto como frases independentes como harmonicamente. O que se passa é que parece haver duas formas de encarar Bach: uma é considerá-lo um compositor altamente racional que, através dessa racionalidade atinge uma transcendência mítica, religiosa, do outro mundo. a outra forma é considerar Bach pela sua importância no desenvolvimento da música ocidental, mas compreender a música como mecânica, sem alma, até repetitiva, o que o torna um compositor de interesse histórico. Para mim ele é a primeira situação. Este filme assuma a segunda versão, e é aí que me separo. Bach como a banda sonora pervertida de um mundo canibal, revirado do avesso e decadente? Não, não me parece. Apreciei o esforço de transformar a música para a fazer corresponder ao contexto, mas não aceito a associação com repetição, mundos frios, ruas vazias com fachadas repetitivas, mesas de jantar enormes onde todos parecem iguais e comem o mesmo. Para mim isto não é Bach.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve