Public Enemies (2009)

“Public Enemies” (2009)

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chapéus vingadores

Há géneros que se renovam constantemente, porque apelam a pedaços da nossa imaginação que nunca esmorecem, independentemente do contexto político ou do momento ideológico específico. Esse é o caso dos filmes românticos, terror, ou mistério. Outros géneros desaparecem e reaparecem, e cada regresso depende largamente, quanto a mim, daquilo que são as necessidades dos públicos no momento do filme. Esse é o caso do western e do filme de gangsters. Creio que isto acontece porque ambos os géneros lidam com personagens heróicos (ou anti-heróis) extremos. Esses personagens sempre representam algo, normalmente altruísta, normalmente enquadrado em algum conceito ou moral superiores, que ultrapassam a “lei” e procuram algo que realmente interessa. Agora mesmo estamos a viver algo que os media designam por crise e que, aparentemente, tem a ver com incapacidade gestora, corrupção, algo que ver com aqueles que têm algum (ou muito) poder usarem essa posição superior para tirar às pessoas cegas, aquelas que agora mesmo lutam para manter o pouco que têm, enquanto os poderosos se safam. Esta é a história que as pessoas comuns aceitam como o resumo daquilo que está a acontecer agora. Por isso, é altamente desejável fazer um filme sobre alguém como Dilinger, alguém que noutros tempos, de uma depressão mais profunda, se tornou o herói das pessoas infelizes. Uma vez mais, hoje como nesses dias, as pessoas sentem-se insatisfeitas, e necessitam ídolos, que não venham das desmerecedoras classes superiores, mas da porta ao lado. É nessa altura que temos estes tipos retratados como heróis, e os polícias são os maus. Há 20 anos atrás, os Intocáveis apresentavam uma visão bastante diferente. O cinema reflecte a vida, sem ser essa vida.

No entanto há mais neste filme que a mera pertinência da sua história. Michael Mann é um realizador interessante, que sabe como criar os canais a partir dos quais vamos ver os mundos que ele nos quer mostrar. Ele constrói os seus filmes não sobre o dispositivo narrativo, que é sempre linear e normalmente previsível. Ao invés, ele faz uma mistura interessante, em que trabalha personagens, e constrói um ambiente com eles. Nos seus filmes os personagens não existem como peças de um mundo que os contém. Pelo contrário eles é que estabelecem o ambiente desse mundo. Eles não existem num mundo, o mundo existe neles. Como audiência, nós somos envolvidos por esse mundo, como se fossemos apanhados numa bola de neve que começou a rolar muito antes de nós começarmos a vê-la. Para isto, Mann usa o enquadramento cuidado dos detalhes, o distanciamento dos establishing shots, que existe mas não definem o ambiente. Por isso é que temos pormenores dos espelhos dos carros, reflexos, chapéus cuidadosamente fotografados. Temos isso porque John Dilinger nos diz que vivemos aí.

Duas cenas poderosas a notar. Uma é quando Dilinger entra no departamento da polícia que o investiga. Soa totalmente como uma invenção inserida numa história real, e por isso a cena não traz nada novo em termos de desenvolvimento narrativo. Mas é um grande pedaço de adequação visual/sonora. A outra cena é a sequência final, que começa no cinema e vai mesmo até ao fim. Dilinger entra, acompanhado por duas prostitutas que nós sabemos que o estão a trair. Eles vêm um filme de gangsters, com Clark Gable. Daí em diante alternamos entre as cenas desse filme, com Depp a vê-lo, com olhar premonitório, e o polícia fora do teatro que se prepara para o apanhar. Tudo isto é enquadrado pela música. Há um jogo de vermos o filme de Gable, projectado para os sentimentos de Dilinger nesse momento, e há a polícia, liderada pelo personagem de Bale, projectado para nós, espectadores, que vemos Dilinger sabendo o que vai acontecer, enquanto ele nos retribui o olhar, anunciando que também ele adivinha o que vai acontecer, já que o filme que está a ver lhe diz isso. Este jogo simples de correspondência, competentemente suportado pela música constrói a tensão. Muito bom. O final, sem música, e a secura directa com que o polícia informa a amante de Dilinger da morte dele é tão contrastante com a parte do cinema como é destrutiva. Esta sequência final é excelente.

Uma grande queixa, contudo. Mann filma em HD, e ele explora muito o meio. Mas porque o HD captura tanto detalhe de imagem, é mais difícil iludir o espectador, cada pequena falha de edição, câmara, ou actores é aumentada para uma proporção incomparável com o que temos com filme ou dv. Este filme está cheio de momentos que simplesmente parecem editados de forma pobre. Creio que isto só se nota quando o vemos no grande ecran, por isso o filme vai provavelmente ganhar quando for distribuído para as televisões. De qualquer forma, isso distrai.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve