Tetro (2009)

“Tetro” (2009)

tetro

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alma encenada

É muito bom que este filme tenha aparecido. É bom poder assistir a ele, no grande ecran, como o filme pede.

Coppola é, no mínimo, respeitável. Quero ver qualquer coisa que ele faça, desde que sinta que ele pôs algo de si no projecto. Como é sabido, até há 2 anos atrás, o Dracula tinha sido o último filme que Francis tinha levado a sério. Os anos 90 foram uma acumulação de lixo inútil mas eventualmente rentável que o permitiu financiar Sofia na sua ascensão, e um outro projecto de Roman. Há 2 anos ele fez um filme que eu não vi, porque estou a guardá-lo para uma ocasião especial; sinto que há algo ali que requer preparação. Agora ele dá-nos este Tetro, e estou contente que o tenha feito.

Ele visualiza a história, e escreve o guião. Temos 2 escritores, e é a escrita do mais velho, suportada pela interpretação que o mais novo faz dessa escrita que nos dará o arco dramático. É tudo sobre o drama, tudo sobre encenação. A história é resolvida com duas performances encenadas no final, uma peça, e um concerto num funeral. Na verdade Coppola complicou o final. Pelo que imagino, ele teve 2 ideias para resolver a história que até então tinha construído impecavelmente, e não teve o sangue frio para escolher uma das ideias, em vez disso tentou fazer as duas. Na minha opinião (pequeno spoiler), ele deveria ter mantido a ideia do festival apenas, e de algum modo fundir aí o funeral (ou o significado dele). De qualquer forma, esse é um momento notável. Ele pega no final operático do seu Padrinho 3 e refá-lo de uma forma não épica, antes desiludida. Foi fantástico, apesar das falhas. (grande spoiler) Aí temos o momento em que as vidas dos dois irmãos estão a ser representadas, da forma como foram escritas pelos dois, em colaboração, e enquanto isso acontece o verdadeiro final é revelado pelo irmão mais velho ao mais novo, e uma reviravolta enorme quebra-nos em pedaços. É uma grande carta que ele joga, e apesar de alguma ingenuidade nos diálogos e a aparente arrogância na actuação de Gallo, temos aqui um pedaço dramático poderoso de cinema, resolvido no próprio guião, e isso é algo raro, uma história (aparentemente) inventada que, por si mesmo, faz o filme interessar. O motivo porque isto funciona é porque ele aplica vários níveis de performance: a peça que os irmãos escreveram está a ser encenada, o diálogo entre esses dois irmãos no momento em que a peça está a ser encenada (esse diálogo é ostensivamente encenado também, através do cenário e da iluminação) e as câmaras cujas imagens enchem os ecrans, que enquadram tanto a peça como o diálogo. O personagem de Carmen Maura é pivot aqui, já que ela controla o quadro maior das coisas, e até define o seu final. Lindo. A partir daqui, o resto do filme era bastante dispensável, à excepção da última cena.

Conseguimos detectar as referências autobiográficas, e para lá do exercício não especialmente interessante de tentar compreender o que é verdade e o que é colocado por motivos dramáticos é saber o que é que Francis estava na verdade a expor-se perante nós, colocando a sua mente na estrutura do filme e assim construindo um mundo forte, ainda que “codificado” onde podemos sentar-nos e onde podemos facilmente confiar as nossas emoções. Num certo sentido, podemos sentir Coppola em Tetro na forma como ambos são criadores para quem ser brilhante pode significar que estão perdidos. É um tema profundo de (des)equilíbrio entre a arte e a alma do artista e, como consequência, equilíbrio entre ambos e a audiência que se interessa por eles. Provavelmente Apocalipse tinha algo que ver com isto.

Para além disso, temos aqui a melhor fotografia digital (?) que já vi. Através do p&b, através do formato, através do enquadramente, Coppola e Malaimare fazem algo que provavelmente não se fazia (bem) desde o Manhattan de Allen. O que eles fazem é alargar o formato, alargar as paisagens, detalhar os interiores o máximo que consigam, e usar toda essa amplitude para atingirem o inverso e (por causa disso) poderoso efeito de intimidade. O Manhattan provavelmente é ainda mais poderoso (nunca o vi no grande ecran) por causa do formato 70mm. Mas este aqui atinge esse ponto especial, em que a cinematografia interessa e se mistura com o que é contado. Por isso é que temos contrastes, ruas povoadas versus apartamentos pequenos, quartos de hospital versus as paisagens vastas da Patagónia. O filme tem que ver com entendermos a intimidade em frente a uma paisagem infinita. É uma ideia linda, e podemos juntar este filme a apenas uns poucos mais na lista dos que conseguem fazer isto bem. A luz também é assumidamente artificial em todos os momentos cruciais, já que nunca nos é permitido esquecer que o filme é teatro, com teatro dentro.

Realmente estou contente que tenhamos este novo realizador chamado Coppola, 30 anos depois. Este filme provavelmente interessa mais do que qualquer coisa que ele tenha feito desde o Apocalipse Now. Ele não aposta aqui a sua alma, mas certamente mostra-a bastante bem. Muito bem. Estou feliz, como se isso interessasse.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve