Lisboa de Hoje e de Amanhã (1948)

“Lisboa de Hoje e de Amanhã” (1948)

e agora?

Este documentário é terrivelmente significativo para todos os portugueses, certamente mais agora do que quando foi feito. Colocado no contexto adequado, e com a informação certa para o suportar, poderá levar-nos a concluir coisas assustadoras e terríveis. Creio que ver agora o filme e reflectir ao mesmo tempo sobre os últimos 35 anos em Portugal pode ser mais clarificador do que qualquer filme, documentário, livro ou o que seja feito depois do 25 de Abril e que trate o tema.

O filme é um exemplo de propaganda. Isto significa que vamos ver um ponto de vista totalmente parcial, em todo o momento favorável ao regime em questão. Neste caso temos todo o tipo de elogios às políticas urbanas de Lisboa há 60 anos. Basicamente, o planto de que se fala é a obra de um homem notável, Duarte Pacheco, que não era um visionário, porque não previu nada que não estivesse já a ser feito noutros sítios, mas que teve o mérito de actualizar as políticas urbanas de Lisboa que é como quem diz, criou uma. Esse plano é notável, apesar de desactualizado hoje, especialmente nos conceitos de habitação em cidade, em termos de tipologia (casas únicas ou geminadas em contextos altamente urbanos é terrível política hoje) e aglomeração social (casas de baixo custo, que agrupam todos os desfavorecidos, também é um conceito desactualizado). Claro que o sucesso e eficiência do plano dependia de Pacheco (que morreu 5 anos antes deste documentário ser feito) ter o poder absoluto para construir e destruir, sem ter de negociar com as popularções envolvidas. Mais interessante do que tudo é a ideia de “pulmão urbano”, materializada no enorme Monsanto. Alguns projectos de bairros são muito interessantes, nomeadamente Alvalade. E claro, os anéis que rodeiam a cidade, é algo contemporâneo e planeado a uma escala visionária (sim, aqui foi visionário), mas creio (sem certeza), que nem todo o plano veio a ser cumprido.

O documentário tem uma grande qualidade: realmente explica o plano, a ideia, no local, em plantas, com maquetes. Não depende de demonstrações conceptuais inúteis, porque as pessoas naqueles dias não dependiam tanto das imagens como ícones como dependemos todos hoje. Mas muito do que vemos e especialmente muito do que ouvimos é perfeitamente ridículo, e era já ridículo e até cómico para alguém naqueles dias que pensasse. A ideia de fazer “monumental” para que ninguém se pudesse “envergonhar” da capital é ridícula, assim como é ridículo o orgulho demonstrado no agrupamento de pessoas pobres como gado nas partes mais desinteressantes da cidade, enquanto “belas vivendas” são construídas junto à água. Bem, talvez devêssemos apreciar esses comentários, são ingénuos e, por isso, muito menos hipócritas do que os que ouvimos estes dias.

Uma coisa muito mais triste é pensar que o documentário está totalmente centrado na capital subdesenvolvida de um país então terrivelmente subdesenvolvido e que os trabalhos que vemos para modernizar a cidade foram insuficientes para fazer a cidade ter as condições de outras cidades europeias e, pior que isso, foram os únicos feitos aquela escala em todo o país. Temos, por isso, aquele princípio fascista odioso de fazer um único empreendimento representar todo um país, que morria lentamente entretanto.

Mas a coisa realmente triste é esta: estes tipos, há 60 anos atrás, tinham o mesmo discurso que os inconsequentes que hoje vão governando o país. Eles tinham o discurso de “tu isto estava mal antes, agora estamos a limpar o país”. Basicamente, desviam a responsabilidade da sua inabilidade e falta de ambição para os erros que “alguém” cometeu no passado. Assim, se eles actualizaram o que não foi feito antes deles, e nos últimos 35 anos nós temos actualizado o que esses tipos deixaram, quem irá actualizar as coisas que nós Não estamos a fazer agora? Vêm o triste disto? Quando é que começaremos a fazer coisas boas, em vez de apenas “compensarmos” o que outros fizeram? Que ciclo vicioso.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve