Contrato (2009)

“Contrato” (2009)

CARTAZ FILME CONTRATO (final)

IMDb

a Ética e a Estética

É difícil sentir-me mais triste com um filme do que aquilo que me sinto com este. Queria tanto que este fosse pelo menos tolerável, mas queria ainda mais que conseguisse agarrar a dimensão da literatura que o suporta. Este filme é terrivelmente cego e não o esquecerei, pelas piores razões.

Dinis Machado era um homem notável. Um homem que viveu e, incidentalmente, escreveu. Era inteligente e a sua escrita, para além do Molero, preenche sempre os espaços que é suposto preencher. Ele sabia que as histórias de detectives e os filmes noir têm tudo que ver com a forma como construímos a história, e não com a história em si. Não é suposto preocuparmo-nos (e não o fazemos) com os personagens de um filme noir para além do papel que eles têm na narrativa. São seres abstractos, ali para cumprir um objectivo, fora da sua existência como personagens. Que feliz fico quando leio Machado, que bem e irónico ele era quando compreendia que era indiferente assinar McShade ou Pato Donald. Que bem ele distinguia entre os ossos e a carne.

Agora, se outra pessoa qualquer estivesse envolvida neste projecto terrível, eu não me importaria muito. Estou habituado à inabilidade comum em transportar a profundidade de certos escritores para cinema, na verdade acho notável quando isso é bem feito. Mas envergonha-me profundamente ver o notável Nicolau Breyner falhar totalmente nesta tarefa. Ele é um homem que compreende a actuação em cinema como apenas um grupo muito restrito de pessoas em Portugal compreendem. Claramente ele não compreende a realização, não controla o arco narrativo maior, e a prova disso é que os muito poucos momentos toleráveis nesta confusão estão centrados em pequenos pedaços de boas actuações (lideradas pela sua própria). Ele constrói um lugar para o seu personagem aparecer como a mente rejeitada, um homem que teve de viver da estética para secretamente gozar a sua própria ética. Que perto isto está da vida de vários bons actores portugueses. Nem tudo é mau, e fiquei contente que Cláudia Vieira acabasse por aparecer simpática, sem ser uma actriz. Talvez ficasse bem num bom projecto.

O filme é baseado numa história baseada em D.Quixote. Este livro é um monumento, Dinis Machado compreendia-o, assim como muitas gerações de escritores que enraizaram a sua escrita naquilo que Cervantes materializou. Borges certamente o fez, assim como Cortázar – apesar de Machado ser sempre muito mais associado ao primeiro, eu penso que ele é bem mais parecido com o segundo. De qualquer forma, as ideias de Borges de escrever sobre escrita (levada a proporções infinitas), histórias sobre contar histórias, são as águas em que Machado mergulhava. É aí que deviam encaixar as memórias deste hitman, é essa a importância simbólica da antiguidade neste filme. Não tem a ver com a história, tem a ver com as histórias com que tem a ver. Pensem nisso. Não é apenas a estética da história que se questiona. Fundamentalmente, isto tem a ver com a ética e os significados de contar histórias. Georgios Thanatos fala disso, é um dos pouquíssimos pedaços de diálogo que até contempla algo que interessa, neste guisado de reminiscências de guerra doentias, sobreexposição de corpos e mortes inúteis. Como pôde Nicolau Breyner não ver isto?

Um espectador português médio vai desprezar este comentário como inútil, pseudo-intelectual e vai suportar essa posição baseado no facto de que estou a avaliar uma peça de entretenimento como se fosse uma peça de cinema “sério”. Antes que votem “não” no IMDb, tenho a dizer que creio que não há entretenimento real sem pensamento sério por trás. Agora votem não.

Incidentalmente, em Outubro passado estava fora do país e não soube que Dinis Machado morreu nesse mês. Só o descobri ao ler sobre este filme. Dupla tristeza. Ele estava entre nós, agora não está. Este é um dia triste na minha vida de filmes.

A minha opinião: 1/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve