Das Blaue Licht (1932)

“Das Blaue Licht” (1932)

blaue licht

IMDb

sensual, iluminado, profético

Qual é o cúmulo do espanto por ver como uma história ficcionada pode metaforicamente predizer a vida de alguém? Ainda para mais quando é a própria pessoa que inventa a história do seu destino? Este filme tem de ser a resposta.

Aqui temos um génio da composição e ritmo visuais, na sua primeira tentativa, que adivinha tudo que se seguiria.

O que pensaria esta deusa, em vários sentidos, ao partir para esta aventura? Lenni era uma estudante do corpo humano, estudou o seu próprio corpo. Estudante da harmonia dinâmica helénica, que compreendia o poder que o movimento podia ter aplicado à arte do cinema. Ela compreendeu-o tão bem que pagaria toda a sua vida por isso. Neste filme, ela é simultaneamente o observador e o objecto observado. Ela, o corpo, é um dos motivos de ser deste filme. Simultaneamente temos uma história sobre uma mulher “especial”. É especial porque tem acesso a um
segredo, conhece um caminho. Esse segredo tem uma identidade geográfica, há uma divisão entre o mundando e o sagrado, a cidade e a montanha. O precioso, rodeado de uma aura de inacessibilidade, alcançá-lo, um privilégio da beleza, do comprometimento e, no final, do amor. E Lenni no centro dessa sacralidade, e aí no momento em que ela
se quebra. E condenada a ser rejeitada por guardar tão grande segredo, sempre. Esta é a situação de Junta, como é a situação de Lenni. É essa a profecia, esta história escrita por Riefenstahl, que é uma história dentro do próprio filme, um livro com a sua foto na capa!

Esta mulher mudou mais do que a história do cinema, fez mais do que ampliar as possibilidades da contemplação visual e, por conseguinte, dos conceitos de beleza. No seu trabalho maldito, maldito porque tem qualidade (!) ajudou a mudar a face do mundo, sendo ela mesmo elemento ambíguo sempre. Neste filme a temos, entre o monte (sagrado) e a cidade, a ligação entre os dois mundos. Agora vejam a geografia do local. A montanha, o poder dos planos variados dela, a força que o objecto por si tem. A mulher ao subir a montanha, o poder dos contrastes. Junta sob o efeito da lua cheia transpira sensualidade, que funciona ainda hoje (em que estamos totalmente viciados por imagens que apontam a ser sensuais) porque é genuína, de uma mulher com mais do que parece à primeira vista. De notar como a camisola decotada está descaída no ombro, sinal inequívoco de uma provocação, de um desejo de que o centro seja o corpo, e a relação do homem com a natureza.

Nesta mitologia por metáforas, germânica e nórdica, vejam como os símbolos são materializados, e filmados. A composição nos planos de subida à montanha e sobretudo quando Vigo entra no recinto sagrado dos cristais é genial, o cenário é uma Valhala potencial, e a expressão de Junta quando descobre a invasão é totalmente reveladora.

Este filme obedece ainda demasiado aos códigos do cinema mudo. Eu vi a versão sonora, mas aparentemente existe uma versão também muda, por nessa altura a transição ainda estar a ser feita. Seja como for, o som neste filme aparece de forma desconfortável e o diálogo realmente não faz mais do que substituir directamente os intertítulos do mudo. E a montagem ainda não existe no sentido supremo que Lenni lhe daria, anos mais tarde e isso prejudica o ritmo, porque o trabalho destes mestres da montagem (Eisenstein, Kalatzov, Vertov…) depende totalmente no ritmo que as próprias imagens conseguem atribuir, pela acção dentro do plano, e pelo corte entre planos. Essa dinâmica não existe aqui, e os códigos são hoje desactualizados, e suponho que seriam já ambíguos no momento deste filme. Mas Riefenstahl é corpo, é cara, é expressão. É movimento, é dinâmica, é ritmo. Mas é-o simultaneamente como observadora, sensível e visual, e como intérprete, sensual (sexual!) e intensa. Esse é o génio dela aqui.

A minha opinião: 4/5 vejam este, várias vezes

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve