Minority Report (2002)

“Minority Report” (2002)

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Kubrick ruidoso

Aprecio sempre os esforços de Spielberg para fazer filmes reais, aqueles que ultrapassam o simples entretenimento que prepassa toda a sua carreira. Ele já nos deu e ainda dá, de vez em quando, momentos divertidos.  Ele está agarrado às histórias, e tem uma forma visual para o seu mundo próprio, e isso é algo não muito comum no trabalho de realizadores que tantas vezes apontam para a difusão massiva. Mas ele também quer fazer bons trabalhos, e na verdade ele sabe o que modela os grandes filmes. Sabe-o como espectador, e compreende-o como realizador. Mas nesta área ele é um criador incompleto, porque nunca é capaz de abdicar da regra de ouro do cinema mundano que é dar ao público o que o público quer.

Aqui ele estuda Kubrick. Já o tinha feito no ano anterior com o desastroso Inteligência Artificial, que era um projecto que, aparentemente, o próprio Kubrick estava a desenvolver na altura da sua morte. Spielberg não conseguiu geri-lo, e fez um dos seus piores filmes, que não é nem sequer tolerável. Ele tenta compensar aqui, e em parte consegue. Escolheu Cruise, que tinha estado no esforço final de Kubrick. Ele é relativamente fraco, ou pelo menos não adequado a voos demasiado ambiciosos, ele é directo e o que faz como actor não reflecte qualquer tipo de entendimento das regras do jogo que se supõe que ele está a jogar. Kubrick não o escolheu a ele, escolheu um casal que já o era nos olhos do público. Além disso, ali o personagem de Tom é um tipo perdido. Aqui também, mas é-lhe permitido tomar a liderança da narrativa. Essa é uma das falhas do filme: permitir a Cruise ser a figura de acção que todos esperam que ele seja atrapalha o ênfase que as imagens e como elas constroem a realidade deveria ter. Também, os ramos inúteis que nascem da narrativa principal desviam o interesse potencial que o filme tinha. Porque precisamos de um reavivar do romance entre Anderton e a ex-mulher? Ou de sublinhar tanto a dor pelas suas perdas do passado? Bem, porque isso reduz o risco de afastar a audiência do filme, e os produtores não quereriam isso, e Spielberg também não. Moralizar acerca do quão corruptos nas mais altas hierarquias são os sistemas aparentemente perfeitos e justos é uma falha menor.

Mas há coisas muito boas neste filme, e Spielberg deve receber crédito também por esses pontos fortes. Ele pega numa história de Phil Dick, que significa que ele vai trabalhar com memórias, mundos possíveis, realidades provisórias. O material de Dick é altamente cinematográfico, porque é normalmente visual (literalmente, aqui) e explora a narrativa: histórias sobre contar histórias. Para além disso, esse também é o material que envolve alguns dos trabalhos mais profundos de Kubrick. Por isso, essa é a mesa onde Spielberg coloca as suas capacidades, e ele sabe isso. E constrói o esqueleto suficientemente bem. Temos um polícia cujo trabalho é interpretar imagens. Essas imagens são fornecidas por três seres com uma aura divina (a capacidade de nos dar imagens é sagrada!). O polícia conclui a realidade do filme através das imagens dentro do filme. Porque a validade dessas imagens é inquestionável no mundo do filme, o poder de controlar e submeter essas imagens ganha proporções ilimitadas. Assim, a história é a tentativa de distinguir entre verdade e mentiras mas, e esse é o truque, a verdade e a mentira contadas pelas imagens. Alguns pedaços são preciosos, como a comparação entre as imagens que prevêm Anderton como um assassino e os eventos reais, ou o material da mulher afogada. Mas não vemos estas imagens durante tempo suficiente, e as imagens em si não são suficientemente poderosas, e o resultado de tudo é comum em filmes de acção agora desactualizados, não em filmes sobre imagens, como seria feito (e foi) de forma perfeita por Kubrick, Antonioni, Wenders ou de Palma.

Se sou duro com Spielberg é porque aprecio a sua imaginação e ambição. Quero que ele faça algo realmente bom algum dia.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve