Blindness (2008)

“Blindness” (2008)

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Fantasporto
IMDb

branco espacial

A determinado momento nas suas vidas, muitos artistas sentem a necessidade de descer aos abismos da degradação humana, da ausência de humanidade (ou trocas de valores radicais). São as catacumbas de Piranesi, o inferno de Dante. Creio que o objectivo básico deste tipo de viagens não é tanto o imaginar uma realidade possível onde poderíamos viver, mas espelhar a nossa própria realidade, os pedaços podres das nossas existências tantas vezes ridículas. O exagero é um truque que os artistas usam bastantes vezes para realçarem o que querem passar. ‘Ensaio sobre a cegueira’, o romance, foi a descida de Saramago a essas catacumbas, o pedaço de escrita mais negro de um pessimista já negro e irónico (ou um optimista de um outro tipo de humanidade). Meirelles, que tinha já feito dois filmes negros, usa o romance para fazer a sua própria descida. Como curiosidade, ele admitiu que queria ter adaptado o livro antes e não o pôde fazer, e eventualmente acabou por adaptar Cidade de Deus. A mistura de ideias e mentes criativas aqui é poderosa, e o filme resulta como se pretendia. Esta é uma representação bem conseguida de um inferno possível, de uma realidade possível, da nossa própria realidade (?).

Antes de avançar para o filme, deveria dizer algo. Há um pequeno documentário brasileiro, praticamente desconhecido. Chama-se “Janela da Alma”. Tem a ver com visão, claro, é sobre observar, e o que significa para uma quantidade de artistas esse conceito, ver. Usar os olhos para conquistar o mundo, e expressar sentimentos. Entre outras pessoas e artistas interessantes que colaboram, refiro 2. Um é Saramago, que escreveu o romance deste filme. O outro é um fotógrafo cego (esqueci-me do nome) que fotografa por intuição, obviamente não se preocupando com o resultado final que ele não pode ver, mas fazendo fotografias como um meio de chegar ao mundo. É um conceito fantástico se pensarem nisso. Recomendo que vejam esse documentário, antes ou depois deste filme. Poderão encontrar coisas interessantes nele. No filme existe mesmo um momento em que o personagem de Ruffalo fotografa, “intuição de cego”, diz ele…

(possível spoiler)

Aqui os arcos dramáticos são semelhantes ao que temos em Irreversível. Aterramos directamente no inferno, na maior escuridão possível, desde o início, e subimos as escadas em direcção à luz à medida que avançamos. Por isso é que neste filme não temos exactamente um prelúdio dos acontecimentos. É um truque poderoso porque não nos permite ser racionais, como espectadores estamos tão no escuro (branco) como alguém que de repente perdeu a sua capacidade de ver.

Basicamente, o filme torna-se um estudo do que a civilização seria sem um dos seus pilares básicos, a visão. “what would happen if…?”. É um dispositivo simples e eficiente e, porque lida com a visão, e o jogo de a retirar, é puramente cinematográfico, literalmente visual. Meirelles obviamente percebeu-o, por isso é que ele queria adaptar o romance desde o início. Tudo o que acontece é a consequência de não ver. Várias coisas podem ser concluídas: depois do choque inicial da perda de visão, as pessoas adaptam-se, e criam conflitos, hierarquias, novos conflitos e novas hierarquias, mas é suposto identificarmo-nos com o que vemos (e se têm uma consciência, vão-se identificar). Novos grupos são formados, novas amizades, novas “famílias”.

Meirelles é um realizador extremamente visual. Aqui, ele faz muito mais “enquadramentos” que nos anteriores, onde as suas capacidades concentravam-se mais no ritmo (edição). Claro que aqui também temos pedaços fantásticos de edição, logo desde o início. Mas é muito mais arquitectónico na sua abordagem. Afinal, o tema de perder a visão e relacionar-se com o mundo é puramente espacial. É uma questão de como relacionar-se com um mundo concebido para ser visto. Sendo um arquitecto, Meirelles certamente aprecia esta questão melhor que outros realizadores.

Assim, o jogo visual que ele joga é espaço, e cores (p&b). A fotografia é altamente depurada, contrastante quando tem de ter contraste, mas sobretudo desenvolvida com imagens sobre-expostas, quase brancas, e a total escuridão, que até existe literalmente durante 30 segundos numa cena específica, quando Julianne Moore procura comida na cave.

As actuações são boas, Julianne Moore está no topo do jogo na forma como é intensa sem explodir demasiado, e na forma como nos mostra uma face enquanto nos sugere que o seu personagem tem outras faces. Assim, ela é líder, literalmente na história, já que é a única que vê. Todos os outros jogam o jogo, excepto McKellen que demasiadas vezes é apenas arrogante como actor, do tipo que acredita que todo o filme (e todos os filmes) têm que ver acima de tudo com actores. Estranho tendo em conta que ele também foi argumentista neste filme. O personagem de Glover foi interpretado por Meirelles como um alter-ego de Saramago. A sua actuação é bastante boa apesar de ter tempo limitado, e a voz off tem o tom certo. Uma curiosidade interessante é que quando o vemos pela primeira vez, ele ouve o rádio, e o que ele ouve é português europeu. A voz off e o rádio são os detalhes que Meirelles usa para nos indicar quem é o seu narrador designado, a presença de Saramago no ecran.

Meirelles refere que cortes anteriores do filme tinham um efeito mais repulsivo, mais negro e chocante e que, por influência do estúdio, ele suavizou a versão final. Creio que ele poderia ter carregado um pouco mais do que o que fez. Também era sobre isso que tratava a história.

A minha opinião: 4/5 o filme não mudou a minha vida, mas certamento criou uma marca duradoura em mim.

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blindnesswy9

1 Response to “Blindness (2008)”


  1. 1 Filipe Machado Fevereiro 24, 2009 às 12:17 pm

    Penso que o filme é muito fiel ao livro. Considero o filme superior à obra literária em termos de história em si, pois Saramago é imbatível na escrita!

    Participe na sondagem “Melhor James Bond com Roger Moore” até ao dia 12 de Março 2009, em http://additionalcamera.blogspot.com. Só faltam 15 dias!!


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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve