Gabriela, Cravo e Canela (1983)

“Gabriela, Cravo e Canela” (1983)

gabriela

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swing intelectual e tropical

Isto foi celebrado no seu dia em grande parte, provavelmente, porque Sónia Braga está aqui.

Na verdade temos uma combinação de elementos que tornam a experiência valer a pena: Tom Jobim e Jorge Amado. Eles são parte de uma tradição relativamente recente brasileira, que consiste em colocar conceitos interessantes em formas populares, coisas que as pessoas podem reconhecer e identificar como “pop” mas que na verdade é o trabalho de mentes criativas e intelectuais. Por isso é que temos “música popular brasileira”, que inclui a bossa nova, que é na verdade um ramo totalmente desenvolvido por mentes intelectuais, com empatia por formas de expressão populares. Jorge Amado faz algo semelhante com a literatura. Ele escreve material que é telenovelesco (e na verdade é bastante adaptado a obras menores de televisão) mas ao mesmo tempo ele trabalha as palavras e constrói a sua própria língua, que flui pelo ouvido como bossa nova (mesmo quem não perceba português pode compreender isto).

Esta capacidade de ser profundo e popular ao mesmo tempo é a maior qualidade de Jobim e Amado, para mim. O problema é que estas mentes podem ser facilmente mal compreendidas, e tomadas por certo naquilo que querem dizer, se as mentes que os interpretam forem ligeiras. Por isso admiro este filme, porque as pessoas envolvidas compreenderam de que tratava. Não que seja uma obra totalmente conseguida, em algum aspecto. Muitas vezes soa crua, e o tipo de sexualidade explícita sem sexo explícito que temos aqui tem sido tão explorada nos últimos 25 anos que soa datado agora.

Também não creio que Braga pudesse explodir agora como o fez nesses dias, as concepções sexuais para a mulher latina (preconceitos!) evoluiram para alguém que será necessariamente sensual e intelectual (Alice Braga, a sobrinha de Sónia é provavelmente um bom exemplo). Sónia representa um tipo rural, é espontânea, tem sovacos não depilados, é iliterada, existe no filme pelas fricções e tensões sexuais que causa.

Bem, o sexo está no coração da escrita de Amado. Ele escolhe um ambiente fechado e conservador, uma espécie de águas paradas sociais, e atira uma pedra a esse charco (Braga). Por isso ela, através de uma sensualidade inconsciente, comanda o jogo, e mexe o enredo. Já que eles queriam explorar o efeito que Sónia tinha nos públicos desses dias, este é um esquema terrivelmente eficiente (algo parecido com o que se está a passar estes dias e a uma escala doméstica com Soraia Chaves, em Portugal).

Queixas: Barreto tem um bom olho cinematográfico, e ele trabalha visualmente os seus planos e eu aprecio isso, mas ele não tinha a certeza se queria fazer um filme sobre Sonia Braga e o que gira em torno dela ou um filme sobre uma mulher sensual numa vila fechada. Creio que ele tentou misturar os dois, e isso é um falhanço. Vou tentar chegar ao seu “Dona Flor…”, mesmo contexto, com Amado e Braga também, e vou ver o que ele fez aí. Eles também tentaram evitar explicar porque Gabriela, estando tão apaixonada, iria para a cama com outro homem, sobretudo sendo o melhor amigo de Mastroianni. Temos uma pista curta, mas não conclusiva. É ‘apenas’ um buraco no enredo e não valorizo isso normalmente, mas aqui soou mal, era importante compreendermos Gabriela aqui.

Uma nota paralela: tenho um interesse especial no urbanismo colonial português. Na verdade estou a trabalhar neste momento numa tese sobre uma dessas cidades, uma das melhores (ilha de Moçambique). Esta pequena cidade que temos aqui (Parati, não Ilhéus) parece um bom exemplo também, que aparentemente foi altamente influenciado na sua concepção pela Maçonaria. Vejam o filme apenas por esse tema se estão interessados no tema. Alguns planos realmente estão muito bem conseguidos.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve