Carmen (2003)

“Carmen” (2003)

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Espanha francesa

Se começarmos a pensar no que envolve este filme, vamos querer vê-lo. Pelo menos eu quis: É a adaptação de uma novela de um escritor francês (imortalizada pela ópera de um compositor francês). O escritor, Mérimée, foi também um historiador-arqueologista-tradutor ou seja, alguém que se interessava por “exotismo”, num tempo em que os mundos rurais de Espanha ou Portugal ainda eram considerados exóticos pelos ingleses e franceses. Essa novela estabeleceu os clichés e os preconceitos em relação à cultura espanhola que ainda são considerados estes dias (e eficientemente explorados pela indústria de turismo). Bizet também ajudou a estabelecer outros clichés, musicais. Mas este filme é espanhol, na produção, mentes criativas e pessoas envolvidas. Por isso, havia aqui uma oportunidade brilhante para um comentário espanhol a esta cultura espanhola descrita por um francês. Essa era a motivação para mim.

Eles começaram bastante bem, e eu penso que eles pensaram no que eu mencionei. Por isso colocam Mérimée na história como personagem, que observa a Andaluzia como um estrangeiro, e tira notas do que vê, partilha mesmo espaço e cenas com a Carmen e José. Isso foi bom e apreciei a audácia de atravessar a linha dos factos (se alguma vez existiu uma Carmen, Mérimée nunca a conheceu.

Mas o problema é que eles nunca saem dos próprios clichés que Mérimée estabeleceu. O filme é visualmente luxuriante, como a ópera o é, musicalmente. Os cenários são brilhantemente barrocos, a (excelente) produção enfatiza ambientes de paixão (operáticos, também), e um ambiente laranja/amarelo sexualmente desviante. Mas eles também enfatizam um pouco demasiado o temperamento dos personagens, desviando a coisa do que poderia ter sido explorado, algo que poderia ter importado e que na verdade é notado:

O drama está construído ao redor de Carmen, e da inabilidade de José jogar o jogo de acordo com as suas regras. Essas regras são definidas por um contexto cultural, e é aí que a fricção existe. Carmen vem de um ramo da cultura espanhola que transcende a Espanha. Ciganos, um grupo nómada, um povo que não queria ou não podia adaptar-se às normas estabelecidas pela cultura católico-romana (essa rejeição ao mesmo tempo procurada e forçada ainda dura hoje em muitos sítios). José é basco, mas isso é pouco visto, bem podia ser de Madrid, que neste caso ia dar ao mesmo, ele é também um cliché. Assim, são essas diferenças culturais que interessam. Como mencionei, isto é notado, mas não trazido para o centro da construção. Eles preferem insistir na sensualidade como o mecanismo do enredo e no sexo como a motivação dos personagens; por isso temos Paz Vega aqui, que tinha estado no sexocêntrico e brilhante ‘Lucía y el sexo’, apenas 2 anos antes. Bem, ela dá o que era pretendido, e é sensual para os meus olhos contemporâneos e contextualizados. Por isso, o problema não é o que eles fizeram aqui, é mais o que poderiam ter feito.

Nota paralela: podemos considerar a Carmen como um símbolo precoce de uma emancipação das mulheres que apenas ocorreria realmente décadas mais tarde. Isto é algo que Mérimée observou, ou algo que ele incluiu como parte da sua visão mais cosmopolita das coisas?

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve