Marnie (1964)

“Marnie” (1964)

marnie

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Só uma aresta

Este é um filme menos apreciado de Hitchcock. Creio que falha num ponto que certamente interessava a Hitch, mas acerta noutro nível. De qualquer forma, creio que o que interessava mais a Hitchcock for precisamente o que falhou.

Quem leu as minhas outras opiniões sobre filmes de Hitch sabe que ele trabalhou em fases muito claras, motivadas por temas que lhe interessava dominar. Assim, creio que ele teve uma fase de exploração espacial que começa com ‘Rope’, outra baseada em ambiente/estilo (culminando com North by Northwest) e uma terceira fase onde coloco este filme.

Nesta fase, o mestre tenta encontrar soluções visuais/narrativas para entrar no abismo da alma humana. Imagino que, sendo já um mestre em manipulação visual e narrativa, e tendo criado ensaios sobre como o olho funciona (Rear Window, Rope, Dial M…) estava agora interessado em como poderia colocar o avesso de um personagem nos olhos de uma audiência. O curioso é que nesta fase ele conseguiu o seu melhor na primeira tentativa, Vertigo, um dos melhores filmes de sempre. O que ele fez depois nunca foi tão preciso e interessante, para mim. Nem Psycho, nem Birds, nem este Marnie.

O sucesso de Vertigo é que o personagem de Novak nos engana a nós como engana ao personagem de Stewart e por isso vagueamos nas mesmas ruas labirínticas de ignorância de Stewart. Esse é o truque que ele usa, e a sua capacidade superior para fazer as coisas desenvolverem-se visualmente completa a obra.

Por isso, o ponto onde este filme falha é onde era mais ambicioso: em tentar fazer-nos funcionar como Marnie, e ver o mundo pelos seu solhos. Não temos aqui um dispositivo narrativo que permita a Hitch usar os seus maravilhoso sistemas de narração visual para fazer a coisa funcionar. Por isso é que ele usa o ecran vermelho sempre que quer sublinhar o estado de espírito de Marnie. Excepto por esses momentos que não são suficientes para nos transportar, pelo menos a audiências de hoje, como espectadores somos meros observadores dos factos da vida de uma mulher que percebemos que está perturbada, sem sentirmos essa perturbação.

Também, e isto poderá ser culpa de Hedren/censura, não conseguimos ligar-nos (eu pelo menos não) à sexualidade distorcida e reprimida por baixo da frigidez de Marnie. Talvez o filme que o tema merecia não pudesse ser feito em 1964. O cavalo como um elemento de escape à repressão sexual da sua mãe, o comportamento de repulsa como o cerne da sua capacidade para atrair homens, ou a cena da violação (tanto pelo personagem de Sean como a violação subentendida da sua infância). Pena, mas não sei se Hedren seria capaz de conseguir o efeito pretendido mesmo sem os constrangimentos da censura. Simplesmente parece-me que ela não é esse tipo de mulher (talvez Novak ou Kelly o pudessem ter feito).

O que funciona é aquilo em que Hitchcock nunca falhou: a sua economia visual, e como ele nos agarra na visão e nos leva onde quer. Há cenas que são notáveis por si mesmas. Assim, vejam a cena inicial, como ele estabelece o que Marnie faz, o seu método, o seu disfarce, e a introdução ao personagem de Sean Connery e ao que ele sabe. Vejam a cena do roubo no escritório de Rutland, como o enquadramento é perfeito (em termos de decidir exactamente o que devemos ver) constrói uma cena tensa e puramente visual. E vejam o plano grua relativamente celebrado na festa, realmente é magistralmente económico e significativo. O filme é um falhanço relativo pelo que disse, mas estas cenas fazem-no valer.

A minha opinião: 3/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve