The Argentine (2008 )

“The Argentine” (2008 )

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um contentor para os pensamentos de cada um

Vi este filme como um documentário ou, mais justamente, como uma meditação pessoal mas directa sobre as próprias palavras do homem, no seu contexto, que no fundo é uma definição para documentário. Fiquei profundamente impressionado com a honestidade deste filme. Percebi onde Soderbergh, o artista, estava, quando senti o espaço que ele deixou para eu poder pensar. Como ele usa a própria história do Che sobre a parte da sua vida que o filme mostra, com a menor manipulação possível (editar o livre já é uma manipulação) e ainda assim, cada espectador é que tem de colocar as suas próprias opiniões sobre o que viu – mais ou menos distanciadas do tema conforme a nossa idade e de que terra somos. Claro que isto está feito considerando que quem vai para o filme tem um conhecimento prévio do contexto e do momento, e que personagem estamos prestes a ver.

Num certo sentido, ponho este filme junto com ‘La pelota vasca’ de Medem (um documentário assumido) no sentido em que ambos mostram uma sensibilidade extrema em trabalhar com temas tão delicados como os que escolhem trabalhar. Ambos causaram contestação, mais com o de Medem porque o realizador estava mais ligado ao problema mostrado, e porque a história está longe de estar fechada, mas para mim ambos são filmes abertos que, como qualquer filme contemporâneo devia ser, deixam uma boa parte do pensamento para o público, e funcionam como um incentivador de discussão.

A estrutura narrativa é eficiente, o trabalho artístico e edição são de grande competência. Che nos bosques da Serra Maestra, à beira de conquistar o poder em Cuba alternado com a sua visita aos EUA em 1964. Esta segunda linha está filmada em preto e branco, a outra tem cores lindas. A ausência de música foi uma escolha minimamente arriscada que eu apreciei. O resto, podem pensar sozinhos. Del Toro está muito bem, concentrado internamente, resistiu totalmente a ser o que nós esperaríamos do Che, e isso diz muito, ser capaz de interpretar uma figura com essa aura carismática ao seu redor, que nós podemos sentir sempre que as suas palavras são pronunciadas. A partir deste filme admiro Del Toro; antes disto não o via como vejo agora. Vou ver as suas actuações anteriores, tenho de ver se não tinha notado o bom que ele é. Completamente ao contrário, Bichir como Fidel é um desastre total, francamente uma das piores actuações que já vi. Como pôde ele pensar que o Fidel tem que ver com imitar uma voz, alguns gestos, e segurar num charuto. Que mau.

Claro que a história deste homem é controversa, o que significa que se podem formar opiniões radicalmente opostas a partir dos mesmo factos, conhecidos e aceites. A quantidade razoável de discussões que já tive desde que vi este filme com pessoas que também o viram prova que estou certo. Para mim Guevara foi um homem lúcido, que leu perfeitamente bem as mecânicas do mundo oprimido onde ele estava. Escolheu ficar nessa parte e viver como eles, apesar de não ser como os oprimidos, e isso merece admiração. As ideias que ele formou da injustiça que ele viu são o produto de uma mente genuína. Mas apesar do diagnóstico ser correcto, todo o processo de o transformar em factos práticos foi uma desgraça, para mim. Ele esteve na raiz de um regime inserido num regime maior, que cresceu em arrogância, em hipocrisias, e num certo momento tornou-se algo pelo menos tão injusto para as mesmas pessoas oprimidas como a situação anterior. E é por isso que, apesar de querer ter sido diferente, esta revolução usou as mesmas armas de força e superioridade física que os outros tinham usado. E isso matou toda a ideia. E o Guevara estava lá, com isso, sendo opressivo quando pensava que estava a ser melhor, creio que por ingenuidade. O que quero dizer é, leiam o homem, as suas observações são provavelmente tão ou mais correctas hoje como eram quando ele as fez, mas não sigam os passos dele, eu não seguiria, pelo menos sabendo o que sei hoje.

Notem também como o ícone Che cresceu a proporções incríveis, por 3 razões, para mim:

-Morreu novo, e lutando por ideais, pelo menos disparando por ideias;

-Ele foi repescado pelo próprio capitalismo que ele rejeitou e foi vendido como um ícone para as populações (maioritariamente jovens) desesperados por sair das contradições deste regime, vejam a contradição disto;

-Ele tinha uma imagem que o segura, literalmente uma imagem, a fotografia que Korda tirou. É fantástico, e provavelmente um caso único, como uma única imagem pode mover milhões, como o momento certo, com a publicidade certa pode ser tão poderoso. Se pensamos nisso, entre os capitalistas que vendem t-shirts e os liberais que acreditam em Guevara, esta imagem é o centro da campanha publicitária mais bem sucedida de sempre. Uma vez mais, admiro a inteligência de Soderbergh em deixar a imagem fora deste filme. É mais que evitar um cliché. É evitar que os espectadores caiam e recordem os preconceitos que eles fizeram (eu incluído) sobre essa imagem.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve