Kagemusha (1980)

“Kagemusha” (1980)

kagemusha

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o filme como um quadro

Vi o meu primeiro Kurosawa há 7 anos. Tenho 24 e logo isso é uma quantidade relevante de tempo. Apesar de tudo, sinto que sou um principiante, também porque apenas tenho um par de anos a ver seriamente filmes, tentando aprendê-los e aprender com eles. Por isso este comentário é mais uma aproximação, seguramente ingénua, mas para fixar algumas ideias que tive ao ver pela primeira vez este Kagemusha.

24.10.2008

-Kurosawa trabalha como um pintor. É bem conhecido que ele pintava a maioria do que filmava, e isso ajudava-o a criar na mente o que ele queria trazer para o olho. As pinturas, em si mesmas, valema pena ver; um extra no DVD tinha uma edição dessas pinturas com o diálogo do filme sobreposto, para mostrar o filme. É uma boa experiência em si. Assim todos os planos são perfeitamente considerados. A composição é fantástica, equilibrada como só um artista poderia conseguir;

-num certo sentido, este é o primeiro Kurosawa a cores, porque é o primeiro em que ele realmente joga com a cor, e a faz parte da composição. As experiências anteriores em cor funcionariam igualmente bem em p/b. Aqui não. Reparei como as cores transportam as acções, como os enquadramentos perfeitamente balançados ganham vida por causa das cores. Os céus são fantásticos, claro, e o sonho nas nuvens também. O ambiente artificial faz o filme parecer um esboço, como na verdade foi, já que é conhecido que Kurosawa estava a preparar com este o grande projecto (Ran).

-A edição é fantástica; os enquadramentos são quase sempre parados, o seu olho funciona como o de um pintor, mas a edição sequencia todos os planos perfeitamente e isso faz-nos acreditar q a seguir a determinado plano, só há um possível para fazer as coisas funcionarem, e esse é o que vemos. É uma estrutura sublime, sólida como uma rocha, e se trabalharem mentalmente, vão ver que não tirariam ou acrescentariam nada. Kurosawa talvez o fizesse. Penso que a edição era um processo mental para ele, ele pintava magnificamente o storyboard, mas na sua mente também construía o esquema da edição. Por isso é que ele conseguia editar de noite o que tinha filmado durante o dia.

-a história é, como muitas, sobre actores que actuam. O papel de um líder tem em si mesmo tudo que ver com actuar. Essa necessidade de sentar-se numa batalha, imóvel, sem mostrar medo, é mostrar algo aos súbditos, e aos inimigos, que pode não corresponder à verdade. Aqui temos um duplo a fingir que é esse líder.

-Coppola e Lucas merecem agradecimentos por permitirem que isto tenha acontecido. Contudo, quando eles falam é claro que Coppola tem muito mais consciência do que trata o filme e o trabalho de Kurosawa, enquanto que Lucas fascina-se com os efeitos visíveis. Isto é significativo. Eu nunca fiz um filme, quem me dera poder, mas não creio que criar um tenha muito que ver com a lente que se usa, ou como se gerem câmaras múltiplas num plano, mas provavelmente tem mais que ver com o que se quer dizer (e como). O primeiro tema é técnico. O segundo mexe com a alma. Por isso é que, dos dois, Coppola foi o que reconheceu as falhas gerais deste bom filme – avassalador se pensarmos nele como uma mesa de experiências, a tela de um pintor.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve