Ramírez (2008 )

“Ramírez” (2008 )


Festival Sitges

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(anti) narrativa nao enquadrada

Vi este filme no festival Sitges, por isso pude estar num post screening com a presença do realizador. Quando questionado acerca das suas referências cinematográficas, ele indicou que o Pickpocket de Bresson foi uma espécie de guia solto para este trabalho. Eu acredito nele, acredito que estava a ser sincero e que sentiu a inclinaçao para seguir esse trabalho. Mas nao me parece que este filme tenha muito que ver com o tipo de trabalho visual de Bresson.

Este filme está enraizado num tipo de narrativa baseada em acçoes quotidianas aparentemente desinteressantes, e tenta explorar um personagem e as conseguentes dinâmicas do seu comportamento a partir daí. Tem sido feito, em anos relativamente recentes, por vários realizadores. Provavelmente tem uma semente no trabalho de Godard, nos anos 60, mas nessa altura ele e os amigos da nouvelle vague estariam demasiado preocupados com outros temas e nao repararam nessa linha que estavam a abrir. Para olhos contemporâneos, este tipo de narrativa conduzida pelo quotidiano provavelmente tem sido melhor dominada por Pedro Costa, começando com o seu ‘Ossos’; desde entao ele tem dominado esse canto negro do universo que criou para ele mesmo. O Dogma dinamarquês tem uma palavra a dizer sobre isto também, mas creio que no seu caminho perderam-se nas suas próprias regras auto-impostas.

Curiosamente, por agora os exemplos que temos apenas contemplam histórias centradas num único personagem, que tem de ser pervertido ou suficientemente obsessivo com algo para que a coisa funcione. É o caso aqui: um assassino em série de motivaçoes sexuais, também traficante de droga, disfarçado de artista. Assuntos maternais nao resolvidos. A acçao ocorre entre Madrid e Segóvia, oposiçao cidade-campo, creio, e também um motivo para colocar um sentido de viagem, caminho interminável que constitui uma boa parte da caracterizaçao cinematográfica de um assassino em série.

Foi impressionante descobrir que esta é uma produçao independente. Sabia muito pouco sobre o filme antes de o ver, e quando soube que foi realizado sob regras orçamentais estritas, fiquei profundamente impressionado. O trabalho artístico é muito sólido, sóbrio de uma forma que realmente aprecio, e o uso da cidade (Madrid) foi muito bom também. Suficientemente concreto para a reconhecermos, mas suficientemente abstracto para nao nos deixar cair em clichés que nos desviem do que interessava. Nao se vê isto muitas vezes.

O que diminuiu a experiência para mim é o que normalmente o faz nos filmes de Costa. Nao creio que um filme contemporâneo, feito hoje para públicos de hoje, tenha de obedecer a uma forma clássica de introduçao-desenvolvimento-clímax-conclusao, mas deveria ir a algum sítio. Nao narrativamente, nao que tenha de acontecer algo sobre os factos da história, mas na parte visual, ou em algo mais. Era seguro deixar o filme como está porque isso nao implicava tomar o risco de fazer algo mais. O que tento dizer está expresso, de formas diferentes, em Wenders, Antonioni e, num plano diferente, Herzog, um mestre em capturar loucura, ou melhor ainda, em encontrá-la em nós. Os primeiros dois sao mestres em levantar questoes no espectador a partir da contemplaçao visual, ou sucessao visual, ou manipulaçao visual, enquadramento… Estas sao as suas abilidades, eles poderiam produzir filmes sem lógica aparente, ou pelo menos histórias interessantes, mas abririam ainda assim a nossa imaginaçao visual. Se os refiro, é porque senti falta dessa subtileza aqui.

O actor principal também nao possui o suficiente para fazer isto acontecer, sem manipulaçao visual/mental de topo como suporte. Ele tem talento, mas provavelmente foi uma má escolha. Nao consegue transportar um personagem com tantos personagens em si como este Ramírez.

A minha opiniao: 3/5 vale a pena, apesar dos pontos fracos.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve