Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988)

“Mujeres al borde de un ataque de nervios” (1988 )

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Intenções dobradas

Todos os verdadeiros artistas confiam, em maior ou menor grau, na sua intuição. Há aqueles cuja magia repousa inteiramente nas escolhas intuitivas que fazem. É maravilhoso podermos confiar na intuição de alguém (ainda mais quando a nossa própria intuição funciona também). Depois temos aqueles que começam numa base racional, e só depois de criarem uma rede de segurança em que possam confiar é que colocam algo dos seus sentimentos mais profundos aí. Creio que este segundo tipo corresponde à maioria das mentes criativas. Por um longo período de tempo, pensei que Almodóvar pertencia ao primeiro tipo de realizador. Depois de ver este filme, definitivamente coloco-o no segundo tipo. Para um espectador desinformado, como eu era quando entrei no mundo dos filmes de Almodóvar, ele pode surgir como se não existisse uma estrutura especialmente reconhecível por trás do que vemos. Os meus visionamentos recentes dos seus filmes convenceram-me do contrário, especialmente este. Este é um filme em que (ao contrário dos outros) a mecânica da história tem a ver com como ela se desenvolve. É uma comédia, tudo bem, e constrói um mundo de coincidências e factos ligados que vêm sempre a ser importante, com o desenrolar da história.

Assim, temos uma narrativa de histórias circulares, intersecções, e coincidências. Os primeiros 5 ou 6 minutos do filme, incluindo os créditos iniciais, são especialmente fantásticos na forma como vemos isso. Temos uma montagem pop de pedaços de revistas, pedaços de vidas, caras, pedaços coloridos. Isto introduz-nos no ritmo do filme, que é frenético em sentido de comédia (isto mostra-se pela história, não a edição). Depois somos introduzidos à nossa personagem principal, ao redor da qual tudo se desenvolve: ela dobra filmes, o que significa que ela empresta a voz a outros corpos. Ela era (vimos a compreender) a amante de um homem que faz o mesmo. E temos aí um fantástico pedaço de filme, em que seguimos esta voz off a dobrar, e o filme que ela está a dobrar, já com o som dobrado. Ela está a dobrar sozinha, a voz masculinha está silenciosa (ouvi-la antes, no início da sequência, também desacompanhada da voz feminina aí). Isto é um trabalho minucioso. Uma sequência fantástica. Colocou-me no ambiente, pensei eu. Isto porque somos enganados por esta primeira cena. A seguir a isto, tudo se transforma num ambiente de comédia (que segue as comédias screwball americanas, isto é assumido por Almodóvar).

As maiores preocupações cinematográficas de todos os filmes de Pedro Almodóvar caem em trabalhar a narrativa de formas que sejam novas, sedutoras, e visuais. Todos os seus films (especialmente os dos anos 80) eram puras experiências, completamente diferentes da experiência anterior. Aí, Pedro estava ligado a um certo ambiente, uma forma psicadélica de vida, certamente derivada da sua experiência dentro da Movida, o underground madrileno dos anos 70. Apesar disso ele estava já a tentar construir novas formas narrativas. Há uma certa característica recorrente em todos os seus filmes: ele gosta da ideia de ter actores cujos personagens actuam. Actrizes que representam actrizes, personagens que pretendem ser algo diferente. Os seus modos narrativos têm muito que ver com isto. Aqui ele foi muito inteligente em como realçou este aspecto. A primeira cena que mencionei estabelece esta ordem, a mãe louca que tenta passar por sã para cumprir a sua loucura, e o filme tem uma conclusão numa cena em que todos estão a actuar e a mentir à polícia. Perto do início, a mulher louca (que finge viver 20 anos antes do seu tempo) diz ao seu pai: “Mentes tão bem, papá! Por isso é que gosto de ti”. Almodóvar escreveu o guião…

A falha aqui está em tudo ser mecânico. Este desenvolvimento por coincidências circulares, e um enredo escondido que acaba por se revelar e nos revelar a verdade não está exactamente em linha com os melhores esforços visuais de Almodóvar. Creio que ele sabe isso, ele chegou mesmo a dizer que este guião foi bastante mais fácil de escrever do que, por exemplo, o de Kika (que tem um conteúdo narrativo bem mais implícito). Assim, narrativamente, isto É Almodóvar, mas não o seu melhor. Mas tem pinceladas lindas, intenções sublinhadas (e sublimadas), e levarei aqueles minutos iniciais onde quer que vá.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve