Uncovered (1994)

“Uncovered” (1994)

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Kate e Barcelona

Esta é uma experiência que vale a pena, apesar das muitas falhas que o filme tem. É um trabalho fraco na maioria das características que se possam pensar, relacionados com a técnica cinematográfica, e expressão:

As actuações são infantis, isto aplica-se a praticamente todos os participantes. A excepção é Beckinsale, ela move-se de uma forma ingénua e arrapazada mas destila sexo. Ela concentra atenções sem ter demasiada consciência disso, e fá-lo bem. O resto das actuações são fracas. A edição não ajuda também. Os pressupostos para uma montagem deste tipo não são difíceis de seguir. Apenas tem de se contar acções físicas, lineares e comuns. No entanto há transições, problemas básicos de continuidade que não estão resolvidos, expressões nas caras que mudam, etc. A música também não é bem colocada, é uma má banda sonora no seu próprio valor, mas acima de tudo no ambiente que transmite. As referências tribais não eram necessárias, e de acordo com este tipo de história, de influência noir, teria sido interessante ter a música a ligar os cenários e evoluções da história.

Mas há 3 coisas pelas quais vale a pena ver o filme. Uma é a estrutura narrativa, como a história se desenvolve. O filme está baseado num romance de Pérez-Reverte, o homem que também escreveu A Nona Porta. Assim, temos uma fusão de arte e vida, a história que acontece à nossa frente foi “escrita” ou pelo menos determinada há muitos anos, por um artista, neste caso um pintor. A primeira cena é fantástica na forma como transmite isto, realmente foi uma das primeiras cenas mais significantes e económicas que já vi desde sempre. Basicamente começa com o primeiro plano de uma mão numa pintura (uma mão como sinónimo de poder, capacidade de fazer coisas), e a câmara afasta-se da pintura (move-se, não é zoom out) e vamos percebendo a margem da pintura completamente fundida com o ambiente “real” que a rodeia. Esta ilusão de fusão funciona por uns momentos, após os quais entramos no ambiente envolvente e esquecemos momentariamente a pintura. Isto funciona muito bem.

Outra coisa interessante é o uso da casa Batlló, de Gaudi. É interessante como a câmara (e a edição) mentem sobre o edifício, para realçar as suas qualidades. Não é uma exploração de espaço especialmente brilhante, mas é bastante competente: o que se passa é, vemos Beckinsale a subir as escadas que sobem para o primeiro piso, ela toca a campainha dessa porta. Estas escadas são lindas, curvam como as costas de um animal, temos a sensação de elevação, mais do que subir escadas. Depois isto é editado e o espaço interior que temos é do interior do sotão, que está construído com arcos que lembram a espinha dorsal de um animal e as costelas. Mais tarde no filme, teremos um plano exterior que estabelece o cenário e que conduz a câmara, do exterior, todo o caminho até ao sotão. Só aqui é assumido que o personagem vive no sotão, não no primeiro piso. Isto foi interessante e demonstrou interesse em jogar com a casa. Uma nota paralela é que este filme é uma boa oportunidade para ver o rés-do-chão da casa, que hoje está poluído pelas grades que conduzem turistas, e pelos próprios turistas, alinhados, que também enchem o passeio envolvente. Pena. Tenho a teoria de que o turismo está literalmente a matar e a sugar vida real dos nossos melhores sítios no mundo, mas isso é outra discussão.

De qualquer forma, o olhar turístico também pode ser visto nos planos que usam a cidade. Aqui também temos mentiras, normalmente relacionadas com a intenção de ter a todo o custo planos cliché. Creio que não foi bem feito isso aqui. Eles não tinham de mostrar todos os sítios conhecidos a toda a hora. Há sítios na cidade relativamente escondidos que são fantástico, e mostram muito mais do modo de vida que os monumentos. Um desses sítios é mesmo usado, o mercado de St.Antoní (a protagonista vive em frente a ele). O sítio tem vida, e eles usam-no bem em algumas cenas. Mas depois mentem sobre a cidade, por isso temos a protagonista a ir da Batló, à Rambla, à Sagrada Família, ao mercado, como se fossem sítios suficientemente perto uns dos outros para se caminhar, na sequência que eu indiquei. É uma mentira, e não tenho nada contra isso, mas tenho contra este esforço de fazer um postal ilustrado da cidade sem retirar nada útil disso. Um bom uso da arquitectura comum é o feito com a casa de Beckinsale, especialmente com as escadas centrais, e o elevador central. O uso do Parque Guëll não é particularmente interessante, excepto por algum movimento de câmara entre as colunas. E nesse movimento foram inseridos alguns casais que namoram encenando. Muito pobre, muito artificial, não era necessário, o parque tem uma vida própria interessante.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve