My life without me (2003)

“My life without me” (2003)

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Kar Wai e uma história

Começo a gostar de estar no mundo que Coixet cria para os seus filmes. Esta foi só a minha segunda experiência com o trabalho dela (a outra foi ‘a vida secreta…’)

Ela tem uma qualidade que aprecio imenso, que é a capacidade de construir um mundo e incluir-me nele, como espectador. E o mundo dela é muito pessoal, algo depressivo, mas que convida à auto-reflexão. Tem uma dialéctica interessante entre ser em si mesmo um mundo escuro, com sombras, povoado de personagens estranhos e pesados, mas no final passar uma mensagem positiva, no sentido em que nos motiva.

A estrutura é construída de forma clara: nos dois filmes que pude ver, ela segura as suas histórias em perguntas de “E se…”. E se tivesses apenas 2 meses para viver? não um princípio original, mas temos uma versão interessante aqui. A questão é imediatamente respondida pelo personagem que vai morrer. Ela escreve essa resposta, define tópicos. Nós vemos mesmo as palavras a serem escritas em frente a nós, no écran. Isto é simbólico. A questão surge de uma partida do destino: câncro. A resposta é completamente controlada pelo personagem de Polley. Assim temos uma luta entre o destino e o poder da personagem para controlar a vida que lhe resta. Ela controla todo o filme, desde o momento em que sabe que vai morrer. Ela submete toda a realidade da vida dela à visão que ela tem dessa realidade sem a sua presença. Assim, ela “escreve” os últimos dias dela, e escreve a vida daqueles que são parte do seu mundo e daqueles que ela vai permitir que entrem nesse mundo. Assim o mundo gira em torno de um personagem, que também o controla. Isto é uma narrativa inteligente.

Visualmente, o ambiente baseia-se no trabalho/movimento da câmara e alguns truques de edição inteligentes (sobretudo quando temos um monólogo que continua mesmo quando vemos a boca fechada do personagem a falar) e a fotografia. A forma como Coixet usa a câmara manual para nos fazer chegar próximo dos personagens é muito pessoal, e funciona, e creio que é a força visual dos seus filmes, e o que suporta o mundo desses filmes. A fotografia segue a tradição Kar Wai/Christopher Doyle, mais notavelmente no primeiro terço do filme. Penso que não foi uma boa opção. Kar Wai desenvolve os seus filmes como contentores vazios em que nós podemos colocar coisas num tipo de abstração muito sensível em que nós, como indivíduos, deveremos ser os principais intervenientes. A qualidade visual dos filmes de Kar Wai existe para nos apoiar e nos dar pistas na nossa procura mental/emocional. Coixet alimenta-nos com informação concreta. Ela dá-nos linhas para seguir, ela motiva a reflexão mas através das suas próprias reflexões (história) que nós deveremos seguir. Assim não poderemos com um filme dela meditar visualmente como fazemos com Kar Wai. Nos filmes dele, a imagem que temos é parte do contentor, o resto é connosco. Coixet enche esse contentor com elementos bem definidos, mas também se preocupa com as “paredes” do contentor, mesmo se elas estão tapadas com os personagens que ela cria. Em ‘A vida secreta das palavras’ ela separou-se desta emulação de Christopher Doyle, apesar do cinematógrafo ser o mesmo nos dois filmes (Larrieu). Suponho que isso teve algo que ver com esta observação que fiz.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve