No Country for Old Men (2007)

“No Country for Old Men” (2007) (Este país não é para velhos)

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as crianças que saíram da caixa de areia

Este filme é uma grande experiência em muitos níveis, e um dos melhores usos do widescreen que tenho visto em produções recentes. A fotografia é invejável, e chamo a atenção para todas as cenas que têm lugar no sítio do massacre. Dia, noite, de cima para baixo e ao contrário, todas as situações e ângulos são tentados, todos eles significam coisas diferentes em pontos diferentes da narração. É realmente grande trabalho. Mas há questões aqui para ser analisadas, creio.

Estou convencido que grande parte do gozo pessoal que podemos tirar de um filme (e de outros trabalhos criativos) é uma questão de decisão pessoal. Basicamente temos duas opções: ficar na superfície, ou pensar/sentir. A vasta maioria das audiências médias de cinema funcionam na primeira situação que basicamente se traduz em “gostei da história?”, “gostei das actuações?” (no nível básico de serem convincentes ou artificiais), e eventualmente a beleza das imagens. Para esse tipo de audiências este filme funcionará perfeitamente, porque está construído de situações/enredos/personagens já vistos. Nada do que temos aqui é pouco usual, traficantes de droga, dinheiro, xerife, e a fronteira dos EUA com o México. Ah, e o psicopata. Com estas afirmações, não me estou a retirar da audiência média. Mas procuro os meus caminhos para tentar compreender o que poderá estar por trás do que vi. Neste caso, não acredito que os Coens simplesmente fossem com a corrente, e fizessem tudo o que seria esperado de outros realizadores apenas competentes. Mas de facto, aparentemente eles fazem isso… suponho que foi propositado.

Gosto de tentar encontrar auto-referências em filmes, ou metáforas para as mecânicas das coisas no mundo real. Por isso tentei fazer a minha própria interpretação do mundo que vi neste filme e estabelecer uma possível relação, que pode ter alguma lógica, ou nenhuma de todo. É importante dizer que não li o livro, nem conheço a escrita de McCormack, mas creio que a sua influência neste filme deve reflectir-se na estrutura narrativa, de episódios que são paralelos, por vezes intersectam-se e ligam-se (nem sempre os Coen funcionam desta forma). De qualquer forma, decidi ver o seguinte: temos um filme que começa no rescaldo de uma chacina. Muitos corpos, disputas de droga num território fronteiriço, e uma grande quantidade de dinheiro. Isto está encenado para nós, é a secção do filme em que somos forçados a ver realmente o cenário e em que somos posicionados lá. Temos alguém que é totalmente ignorante em relação ao que se passou, e o destino/acaso leva-o a encontrar o dinheiro. E ele é perseguido por isso. Verifiquemos o caçador. Todos pensam que ele é louco, que “you(ele) don’t have to do this”. Mas ele nunca cede um único milímetro. Ele tem a sua própria moral, ele cria as suas regras, e ainda dá uma chance ao destino, quando usa uma moeda para decidir sobre a vida e morte. No final, ele procura exactamente o mesmo que todos os outros, o ‘macguffin’ (dinheiro), mas intuitivamente sabemos que ele tem outras motivações, apesar de não sabermos exactamente quais. Isto foi feito por dois irmãos, orgulhosos de serem aqueles que brincam numa caixa de areia do canto de Hollywood, fazem os seus jogos e não são aborrecidos por aqueles que estão “apenas” atrás do dinheiro. Mas afinal, eles também jogam o grande jogo, eles também produzem no contexto do Moss e do Wells deste filme, e eles também estão sob a jurisdição do Bell. Eles não são independentes na visão falida europeia, eles nem são cineastas de baixo custo. Eles são estrelas, e o sucesso mediático deste filme fê-los ainda mais estrelas. Assim, creio que assisti a um jogo. Os Coens pondo audiências, investidores, produtores a verem-se a si mesmo, fugindo e temendo os Coens, e a rir disso. Ironia encoberta. Mas tenho um senão neste jogo. O filme encheu muitos bolsos, é visto, e o seu sucesso pode tornar-se uma espécie de paradigma, um estilo para ser perseguido, copiado, e reconhecido. Assim, quem ganhou o jogo?

E já agora, para mim este é o mais “convencional” dos filmes dos Coen, convencional em relação aos outros filmes dos Coen, e também em relação aos filmes convencionais.

A minha opinião: 4/5, é divertido ver Joel e Ethan, mas eles já fizeram melhor. Mas este é um bom filme.

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve