Fados (2007)

“Fados” (2007)

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Fado também é arte

Tenho sonhado com este filme. Apesar de o ter visto há alguns meses, não o comentei antes porque queria compreender como ele caberia na minha imaginação. E tem mexido com os meus sonhos de uma forma que eu não tinha ainda experimentado antes. Este trabalho é um marco, e vou marcar este como um filme que deve ser visto se se quiser obter a máxima amplitude daquilo que a imagem em movimento tem para oferecer.

Eu tinha experimentado o género musical segundo a visão de Saura. Este supera o que eu tinha experimentado com Iberia e Flamenco. Ele superou tudo o que tinha sido feito antes nesta área. O que se passa é: não tenho a certeza de ter visto cinema aqui. Eu vi uma composição, que implica música, desenvolvimento plástico de cenários base baseados no sentimento que a música causa, enquadramento, movimento da câmara e por aí em diante. Assim, Saura joga com todo o baralho de cartas. Ele joga com a câmara, som e a imagem/composição. Ele usa todas as possibilidades, e sabe tão bem onde quer ir.

Provavelmente, como português, eu liguei-me com este filme de forma especial. Fado é uma arte em desenvolvimento, é uma forma de expressão que saltou já da “periferia”. Amália Rodrigues tentou saltar barreiras, ela procurou fazer do Fado algo mais jazzístico no sentido em que podia tocar com mais “notas”, quebrar formas, quebrar mesmo a ideia de formas rígidas. Ary dos Santos foi o equivalente no campo das palavras (e suportou nesta pesquisa o emergente Carlos do Carmos, que actua neste filme). Mas quando Amália começou, ela tinha o fascismo a suportar o “tradicional” e o fado tinha o papel fundamental de suportar a alma das pessoas, e a saúde do império. Por isso ela nunca teve a oportunidade para levar a música para todo um nível novo, como tem sido feito em anos mais recentes.

Mariza apareceu, entretanto, bem apoiada pelas pessoas certas, e ela levou o fado, musicalmente, para um novo nível artístico. Fado é também música, disse-lhe Morelembaum. Novos desenvolvimentos musicais estão em curso. E agora temos este filme. Aqui a questão torna-se mais universal e relaciona-se com outros “desportos”. Várias formas de expressão “paralelas”, que intersectam o fado sem serem exactamente fado. Sob essas expressões, Saura coloca superfícies coloridas planas, e ele usa-as à sua vontade, para realçar o melhor que os “números” (danças ou música) têm para oferecer. Assim, ele usa espelhos para multiplicar as áreas ou para reflectir movimentos que lhe interessam, e usa cores fortes, normalmente para colocar caras em contraste. Aqui ele consegue momentos de génio. Sonho com aquele laranja amarelado, creio que chorei uma lágrima no meu lugar sobre aquele laranja… O génio aqui aparece quando Saura consegue usar todos os meios que tem para realçar o valor da música. Ele cria uma nova forma de arte, que poderá estar para lá do cinema, algo entre o happening e a instalação, mas muito mais interessante que esses dois. Curiosamente, 2007 também nos deu um filme que eu considero essencial, Caótica Ana, de Medem, outro espanhol, e nesse filme comentei uma cena específica que considerei ser algo mais que cinema, algo que incluía o espectador. Muito interessante, o mesmo ano, o mesmo país. Creio que o próximo passo aqui será incluir nestas concepções um olho arquitectónico/espacial. Isso poderia dar-se estudando os arquitectos do cinema (Welles, Tarkovsky, Antonioni…) e referenciá-los, ou transformar esta numa experiência física real, mas aí o cinema estaria ausente. Preferia que isto fosse feito da primeira forma.

A minha opinião: 5/5 senti que estava a assistir à construção de um novo meio, algo que nunca tinha visto antes. A sensação é fantástica.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve