Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980)

“Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón” (1980)

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no princípio…

Suspeitava que iria ver algo assim antes de o ver. Estava interessado em compreender as raízes de Almodóvar como realizador, como ele começou a desenvolver o seu tipo de narração visual, que é tão único hoje. Ao mesmo tempo, queria compreender e sentir a pulsação do espírito underground de Madrid naqueles dias. Estas questões são pessoais para mim. Quero compreender como se pode utilizar uma força jovem (e inexperiente) disponível e talentosa e dar uma expressão fiel de um certo momento no espaço e no tempo. Também queria (e ainda quero) chegar aos “primeiros trabalhos” de realizadores que admiro, para assim compreender como eles usaram as suas limitações técnicas e orçamentais para perseguir as suas ideias. Este não é o primeiro filme de Almodóvar, mas é o mais antigo a que podemos ter acesso no mercado legal (e suponho que também no ilegal…).

Creio que o filme falha. Não por ser tecnicamente e formalmente (muito) imperfeito. Na verdade até gostei de ver todas as falhas a passar em frente dos meus olhos, creio que por vezes um projecto pode funcionar melhor se o amadorismo/inexperiência por trás se mostrar. Este é o caso. De qualquer forma, para mim o filme falha porque aqui Almodóvar ainda não é capaz de transformar as suas vulgares histórias de novelas em algo inteligente de um ponto de vista da narrativa visual. A história aqui não é mais ou menos pobre que em muitos dos sucessos de Almodóvar. Mas aqui ele não conseguiu encontrar um dispositivo suficientemente inteligente para transformar tudo numa experiência puramente visual, como ele faz nos seus melhores trabalhos. Assim, tentei ver a parte positiva disto. Este filme prova-me o quão inteligente Almodóvar é, pelos caminhos que percorreu depois desta aventura, inteligente no que toca ao desenvolvimento narrativo, e a narrativa visual e como ele sempre procura novas formas de codificar a sua história e fazê-la chegar como um produto visual.

Na verdade, há pistas aqui. Entre determinadas cenas, as raparigas sugerem a produção de um filme sobre as suas próprias vidas. Esse filme teria precisamente os eventos que vemos no ecrán. Decidi tentar entender (penso que isto é uma questão da interpretação de cada um) que eu estava a ver o próprio filme que elas estava a discutir, como se a história fosse na verdade coisas do mundo real que aconteceram, e eu estivesse a ver mulheres a representar essas vidas. Mas há um aspecto importante (interessante), o personagem de Carmen Maura avisa que para essas raparigas interpretarem as suas próprias vidas, elas têm de representar. Têm de actuar, para serem elas mesmas. Inteligente. Almodóvar seguiria colocando mulheres que actuam, muitas vezes actuam como elas mesmas, outras como actrizes (“Todo sobre mi madre” tinha tudo que ver com isto). Este possível filme dentro do filme, e a denúncia de que talvez estejamos a ver um filme com personagens que se representam a si mesmos foi para mim uma pista para narrativa por camadas sobrepostas, e invenção narrativa. Para mim, a carreira de Almodóvar tem tudo que ver com isto.

A “movida” está aqui. Neste momento em que estou com vontade e tentando criar algo no mundo visual das imagens (chamem-lhe cinema se quiserem), interessa-me muito compreender como neste momento da cultura espanhola, tantos talentos foram capazes de se revelar, e produzir trabalho importante. Vou provurar outras provas visuais e documentos importantes deste tempo, tentarei compreender como este e outros filmes foram possíveis. Este é um mau filme que eu invejo. Gostava de poder reunir uma equipa assim um dia.

A minha opinião: 2/5

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2 Responses to “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980)”


  1. 1 Felipe Abril 18, 2008 às 3:32 pm

    Olá, Rui!
    Fiquei pensativo. Estudo cinema (produção audiovisual) na Pontifícia Universidade Católica, Sul do Brasil.
    Preparamos para este semestre um seminário sobre Diretores (ou Realizadores) Cinematográficos. Minha equipe elegeu Pedro Almodóvar como autor.
    Como parte de nossa pesquisa, leio o livro ‘El cine de Pedro Almodóvar’, de Nuria Vidal – te aconselho, se queres realmente saber mais sobre o tema, a ler o livro de Vidal. Para nós, brasileiros, é extremamente raro o filme em questão – seja no mercado formal ou informal, legal ou ilegal (excetuando-se a possibilidade de ferramentas de download, claro). Há uma boa leva de filmes de Almodóvar nunca exibidos oficialmente no Brasil.
    Se fiquei pensativo, me apresento deveras reticente: lanço a sugestão de que leias o livro de Nuria Vidal; ali vais entender como foi o processo longo e penoso de finalizar ‘Pepi, Luci, Bom’ e como o sistema de cooperativismo cinematográfico foi logo suprimido do sistema de realização de Almodóvar. Ainda, o tal “sistema cooperativo” se assemelha ao que usávamos em Porto Alegre na mesma década de 80. É incrível – e ao mesmo tempo, distinto – conceber tal relação.

    Agora uma pequena mágoa: como vejo poucos filmes lusitanos! É uma lástima… mesmo com parentes residentes em Porto, meu contato com a filmografia de vocês é quase nula!

    Abraços


  1. 1 Onde tudo começou! « Tudo Por Nada Trackback em Outubro 29, 2008 às 9:08 pm

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve