Macao (1952)

“Macao” (1952)

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Cinzento, não “noir”

Desta vez a minha intuição falhou. Normalmente prevejo algumas coisas sobre os filmes que estou prestes a ver baseadas em puro preconceito, algumas coisas que retiro de outros filmes dos mesmos produtores/actores/realizadores que estou prestes a ver, o título do filme (normalmente sugere-me muito simplesmente saber o título) ou pura intuição. Este foi o caso.

O que temos aqui é um noir feito no início de uma década de aspectos interessantes no cinema americano: não foi uma década experimental como os anos 30 (que exploraram as possibilidades de um meio renovado pela possibilidades de sincronização entre som e imagem) nem tão apoiado num género e num sentido de estilo com os anos 40. Assim, num certo sentido, esta era uma década de indefinição. Mas filmes como este dizem-me que já não se vivia o período do noir tal como os anos 40 (e em grande medida John Huston) o definiram. The Maltese Falcon mudou (ou eventualmente resumiu) algumas convenções e introduziu novas possibilidades para dispositivos narrativos em cinema, e esse legado seria desenvolvido continuamente e ainda tem novos passos a serem dados nos dias que correm. Mas esse estilo, os muito apreciados chapéus, detectives, luz/sombra que eram a face mais visível (e para muitos espectadores incorrectamente tidos como a essência do noir) não funcionam já aqui. Ainda estou a tentar encontrar um filme noir posterior a Sunset Boulevard que realmente funcione. Este não funciona.

Comecemos com Macau. Seria, em teoria, uma boa cidade para colocar uma história deste tipo. Mesmo que a realidade descrita na introdução do filme seja provavelmente um exagero enorme (e invenção) em relação ao que realmente acontecia em Macau naqueles dias, esse é um exagero que estou disposto a aceitar, por uma certa riqueza ficcional do filme. Uma queixa paralela é o retrato do polícia português. O tipo ccorrupto, gordo e de bigode é um preconceito que suponho muitos europeus tinham (alguns ainda o terão eventualmente hoje) em relação aos portugueses. Não sei que concepções os americanos teriam sobre isto, mas estas estilizações chateiam hoje quando as vemos, mas provavelmente daqui a 20 anos os preconceitos que se colocam hoje nos filmes que se fazem hoje serão também notadas. De qualquer forma, encontram-se em muitos, muitos filmes americanos com mais de 30 anos várias situações como esta (estou-me a lembrar, por exemplo, do japonês de Breakfast at Tiffany’s). De qualquer forma, Macao começa como uma promessa na voz off, mas termina como um estúdio de cinema aborrecido, ligeiramente oriental ligeiramente genérico, sem grande interesse para além do que é descrito em off.

Para lá disto temos a figura controladora e carismática (rica) que é H.Hughes. Ele provavelmente seria muito controlador em relação às suas produções (ele próprio tinha já entrado no delicado trabalho de dirigir). Ele coloca dois dos seus fétiches aqui: Mitchum e Russell. Assim, temos Hughes que quer criar um clássico do filme noir. Para fazer isso ele chama um realizador competente (mais do que competente) que tinha sido, precisamente, capaz de trabalho muito bom em colocar histórias em cenários estranhos e exóticos; Hughes, sabendo isso, procura um típico cenário noir, não fresco, pouco interessante (ou pelo menos explorado de forma pouco interessante). O enredo não está sequer perto do material interessante da década anterior. Há alguma dúvida algures no enredo? O que é que não sabemos? Não sabemos quem controla toda a história? Há alguma ambiguidade em relação a algum personagem? Grahame seria a mulher nesta história eventualmente mais capaz de trazer alguma ambiguidade em relação ao “deus” desta narrativa, o marionetista que controla as acções nas costas dos espectadores, mas é completamente desaproveitada. A cena com Mitchum e Russell no barco demasiado próxima do início destrói qualquer ambiguidade ou jogo que pudesse ocorrer entre ambos. Mitchum anda simplesmente a passear num fato branco, representando a sua “americanidade”. Russell talvez fosse sedutora e misteriosa aos olhos de Hughes, mas aqui era uma mulher normal, de longe ultrapassada por Grahame, que aparece em muito menos cenas. Jane Russell teve melhores momentos noutros filmes.

Este filme é nostálgico, tinha interesse em vê-lo, mas não correspondeu às expectativas.

A minha opinião: 2/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve