Tout va bien (1972)

“Tout va bien” (1972)

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esquisso estrutural

Godard faz-me sempre pensar. Raras vezes sou indiferente ao que ele faz, com algumas excepções. Mas muitas vezes, a excitação em relação a um filme dele vem nos dias depois de o ver. Este é um desses casos.

O esquema aqui é simples, ele está a trabalhar a (re)invenção estrutural dos seus próprios filmes. Provavelmente nesta altura ele seria suficientemente arrogante para acreditar que estava a trabalhar na reinvenção de todo o cinema (lembram-se do “jean luc cinema godard” de Bande a part?). Bem, há conclusões aqui que viriam a afectaro trabalho de outros autores, mas nem sempre. Creio que este filme é importante como um marco na própria obra de Godard, no quadro maior dos seus trabalhos e também é importante ver no contexto histórico do cinema de então. Muitas coisas aconteciam no princípio dos anos 70, e a principal questão seria clarificar o significado do cinema e as suas ligações à vida real, a questão essencial que a nouvelle vague tinha levantado mas nunca respondido satisfatoriamente. Assim, há um conjunto de trabalhos deste período que creio deverão ser analisados porque demonstram diferentes abordagens de diferentes contextos a uma questão similar. Pensem em “F for Fake” de Welles, “The conversation” de Coppola, “La nuit américaine” de Truffaut ou, uns anos antes, no Blow Up de Antonioni. Em comum entre estes projectos (e alguns outros) há, a meu ver, esta preocupação cinematográfica de compreender se o cinema representa vida, encena vida, ou é pura ficção que poderá influenciar a vida. Este filme é provavelmente a resposta menos interessante dos projectos que mencionei, mas mesmo assim vale a pena verificar.
A razão porque creio que este é menos recompensador do que os filmes que referi acima é porque Godard, nesta altura, tendia a arruinar parcialmente os seus filmes aborrecendo o espectador com as suas concepções infantis e cruas de ideologias políticas. Assim, ele não se foca tanto no cinema como se foca na política. Gosto de acreditar que mesmo então ele tinha a noção da falta de profundidade das ideias que ostentava, mas escolhia adoptar essa postura panfletária como motivadora de determinadas opções estéticas. Assim, no que toca ao cinema:

O filme é, em si mesmo, uma estrutura crua e denunciada, que contém várias estruturas cruas e denunciadas. O resultado é que podemos verificar os mecanismos de todos os assuntos a que assistimos: filmes, polítiva e relações pessoais. Destes três, o único que interessa é o relacionado com concepção cinematográfica. Tudo é denunciado pelo que no início temos um plano em que alguém assina cheques para pagar serviços relacionados com filmes (fotografia, filme, guião, etc.) seguido de um diálogo off que traduz estilizadamente do início do processo de realização de um filme. Depois temos uma sequência linda dentro de uma fábrica. Vemos a fábrica (o edifício) em corte, assim podemos identificar simultaneamente o que acontece em cada uma das suas divisões (esta denúncia estrutural seria usada em diferente contexto por Lars von Trier, com Dogville). Mesmo antes de nos ser dado a compreender que estamos a ver um cenário, nunca por um momento acreditamos estar a ver locais reais (as cores de tudo são as da bandeira francesa). As actuações dos trabalhadores são ostensivamente dramatizadas por isso nunca ponderamos estar a ver vidas reais capturadas. Assim, a ficção está anunciada. Tal como Truffaut en “la nuit américaine”, Godard finalmente assume que o cinema tem dinâmicas próprias que não tem assim tanto que ver com a vida, e o papel do cinema não é capturar a vida, mas criar uma vida própria, com raízes no mundo real, mas dotada leis internas próprias.

Depois, Godard arruina a experiência parcialmente. Ele assume o discurso político. Ainda na fábrica, coloca vários trabalhadores (actores que representam trabalhadores, é bom lembrar) soltando monólogos terrivelmente aborrecidos (pelo menos do meu ponto de vista, não sou um tipo do Maio de 68, os mais velhos por favor comentem aqui), referentes aos seus direitos e queixas. Ele coloca os actores a falar directamente para a câmara, assumindo uma vez mais que um filme está a ser feito. Mais tarde ele assum que nós podemos fazer o nosso próprio filme, quando põe Montand a falar lado a lado com uma câmara apontada a nós (quem faz o filme, quem está por trás ou pela frente da câmara).

O terceiro, e claramente menos desenvolvido tema, é o da relação pessoal entre Fonda e Montand. Também é contado tendo em atenção a estrutura da relação. Assim, tudo é estilizado, cliché, mas é suposto ser assim. Terminamos o filme com várias possibilidades de como uma relação pode terminar.

Este filme é um esquisso cinematográfico, como se fosse um demo de um filme. Gosto dessa atitude, esse aspecto de projecto “inacabado”, algo rude, com aspecto de filme provisório. É como se fizessemos parte do processo. E na verdade fazemos.

Ah, há um plano, que sozinho faz a experiência valer a pena: o plano relativamente famoso do supermercado. Temos a câmara a mover-se durante cerca de 15 minutos sobre uma linha recta, vemos a vida normal de supermercado, coisas que acontecem, uma luta “ideológica” encenada. Apenas isso. A câmara vai e vem, a linha que segue é paralela à linha das caixas registadoras. Vemos as coisas ao nível do olhar dos trabalhadores das caixas. É lindo. É cinema, talvez não cinema da verdade, mas verdadeiro cinema.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve