El embrujo de Shanghai (2002)

“El embrujo de Shanghai” (2002)

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Lolita, Quixote . um filme dentro de uma tendência

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme está em linha com o que o cinema espanhol tem explorado nos últimos anos. Isto significa que estou a falar de um filme com uma construção muito pensada, em termos narraticos, referências internas e simbolismo. De Trueba, eu apenas tinha visto, há alguns anos, Belle Époque, e não conheço o arco que a sua carreira desenhou nos 10 anos entre esse filme e este, mas questiono-me, mesmo devido a outros projectos espanhóis recentes, quão profunda está a ser a influência das criações de Medem nos filmes espanhóis. A sua primeira longa é Vacas, de 1992, precisamente o ano de Belle Epoque, que não tinha nenhuma das preocupações que verifiquei neste filme, assim sinto-me inclinado a considerar que Medem está a tomar o seu caminho (merecido) em influenciar os criadores espanhóis (e não só espanhóis).

Assim, aqui temos uma base narrativa baseada no já visto filme dentro de um filme. Neste caso é quase literalmente um filme já que uma história é contada paralelamente à acção principal, e vimos a descobrir que essa história não é verdadeira ou, pelo menos, poderá estar distorcida e deslocada. Esta estrutura canónica existe exactamente assim no “Kiss from the spider woman” de Babenco, pelo que esse filme apareceu-me como uma referência directa para este. Mas é interessante compreender como a realidade paralela inventada influencia (talvez) a linha principal. Verificando: a mulher de Shanghai chega-nos a nós, espectadores, representada pela actriz da mãe da rapariga; a história fictícia termina com essa mulher oriental a ser levada pelo pai da rapariga. Forcat veste um traje oriental que vemos o pai da rapariga usar na história inventada. Poderá o filme que Forcat conta falar sobre o passado da relação dos pais da rapariga? não sei, mas gosto da ambiguidade de indagar quando deveremos colocar a história, ou se deveremos considerá-la de todo (realidades construídas, realidades em sonho, realidades inventadas, linhas temporais ambíguas… Medem, uma vez mais).

Agora verifiquemos o rapaz. Ele desenha. No princípio, ele avisa que não consegue desenhar decor, mas depois produz os seus desenhos mais importantes decor (os retratos do capitão e da rapariga). Ele desenha o capitão recentemente falecido apressadamente, porque não quer que a sua imagem se desvaneça, e ele agarra o mundo desenhando-o. Da mesma forma, ele destrói o retrato da rapariga para tentar esquecê-la.. Ele desenha o mundo que quer ver, ele submete o mundo aos seus desenhos, assim ele inventa o vestido, e imagina a nossa Lolita nua.
Temos também o velho capitão, que também inventa o mundo onde vive, através da reclusão. Vêmo-lo pela primeira vez saindo de um armário, ele cria o seu próprio personagem ele mesmo, com óculos que pintam o seu mundo e dirigem o seu olhar. Ele é o Quixote, que define os seus inimigos, e cria os seus objectivos. Ele apresenta o rapaz à Lolita. Isto é importante.

A rapariga está fechada. Ela compreende o mundo através das histórias que lhe contam. O seu mundo é o que se passa no seu quarto. Ela tem canais definidos, e está claramente influenciada pela “ligação” Xangai que é mais forte porque os personagens na sua vida fazem o esforço de a ligar a Xangai. Ela vive nos filmes que lhe contam. Assim, no seu caso, os filmes influenciam a sua vida, mais do que a sua vida influencia os filmes. Quando a inocência de Lolita é quebrada, ela termina vendendo bilhetes num cinema, e não olha para os clientes, a magia desaparece. Uma última nota para o facto de que o pai da rapariga viveu de distribuir projectores de cinema, a sua mãe ainda vive de explorar uma sala de cinema, mas o filme dentro do filme mostra o seu pai adormecendo enquanto vê um filme…

Temos outro filme ambíguo, em tentar descobrir qual é a versão real da morte do amante de Lolita.

O rapaz termina o filme numa sala de cinema quase vazia, chorando sobre a inocência que ele também perdeu, e aceitando o filme que lhe chega.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve