Call Girl (2007)

“Call Girl” (2007)

IMDb

sobre cinema:

pensei várias coisas durante e após ver este filme. E há uma discussão que necessito trazer para a mesa antes de comentar especificamente este filme:

Este é um filme por um realizador que não quer ser um autor. Ele tem o entendimento que uma autoria demasiado vincada matou o cinema europeu, ele até refere uma data para isso, 1963, quando Fellini chamou ao seu 8 1/2 “Fellini’s 8 1/2”. Tenho a sensação que Vasconcelos encara como snobes os autores que querem ser autores. Assim, ele escolhe o cinema americano e rejeita a forma como o cinema europeu, em geral, vem sendo desenvolvido, agora e nos últimos 40 anos. Compreendo muitas das suas preocupações e críticas, eu partilho essas mesmas preocupaçõe, nós necessitamos (em Portugal e na maior parte da Europa) de uma indústria de cinema, filmes que possam pagar-se e permitir que outros filmes sejam feitos, e lucros sejam distribuídos. Mas discordo profundamente com a noção implícita (ou não tão implícita) de cinema ‘comercial’, ‘industrial’ como algo oposto a cinema de ‘autor’, cinema ‘de marca’, e creio que os melhores filmes ‘comerciais’ têm ideias visuais profundamente interessante e motivadores, conceitos fortes, o mesmo tipo de ideias por trás de filmes de autor. Assim, eu rejeito a separação entre criações autorais e industriais, e critico Vasconcelos como tendo uma atitude algo snob em relação às concepções de cinema autoral idêntica à atitude snob que muitos autores têm em relação ao cinema industrial. Muitos dos melhores autores, para mim, nasceram para o cinema produzindo em contextos imensamente comerciais (Wilder, Ray, Hawks, Welles! ), muitos também começaram criando em ambientes underground e vieram a produzir o seu trabalho “importante” para grandes audiências (Hitchcock, Lang, Almodóvar, Kubrick, Park), e alguns dos cineastas mais interessantes de sempre lutaram contra a ideia de se tornarem “industriais” e apesar de se tornarem conhecidos de uma grande audiência, produziram o seu trabalho relativamente livres de exposição pública massiva (Godard, Antonioni, Medem, Kar Wai). Vim a admirar estes ‘autores’, e francamente creio que há muito mais em comum entre, por exemplo, Kubrick, Welles e Medem do que entre Welles, Hawks, ou Ray…

A minha convicção até agora é simplesmente que temos bom e mau cinema, e transversal a esta ideia (de bons e maus filmes), temos aqueles que têm uma boa máquina de marketing a suportá-los, e conseguem uma vasta distribuição (filmes das majors americanas, alguns filmes franceses da Gaumont, certas produções inglesas e o crescente cinema espanhol, com a grande Sogecine e a crescente popularidade de certos ‘autores’ espanhóis ou de certo cinema oriental). Assim, temos grandes filmes e material mau que, nos dois casos, ou é vendido eficientemente ou passa praticamente ao lado do público. Tentar perceber até que ponto o autor tentou muito deixar a sua marca ou ao invés não se esforçou por o fazer, é para mim secundário. Vamos a ver, não será Hitchcock um dos autores mais reconhecíveis?, não conseguimos identificar um dos seus filmes por um par de planos apenas? Há alguém que tenha vendido filmes tão facilmente como ele no seu tempo? O que será o cinema de Scorcese, Coppola ou Spielberg senão cinema de autor de grande orçamento? Será que o Blade Runner é mais “fácil” de ver que Le Mépris? Magnolia que La ardilla Roja? eu vi-os e partilhei com igual emoção o que entendi ser o cerne de cada filme. E já agora, creio que os 4 filmes que mencionei são cinema de autor. Nos meus comentários, sempre tento submeter todos os filmes ao mesmo tipo de critérios, rejeito a atitude daqueles que rejeitam filmes porque muitas pessoas gostam deles assim como rejeito quem rejeita um filme por ser demasiado “intelectual” (creio que esta deve ser a palavra mais usada por esse tipo de fazedores de opiniões).

Tenho pensado neste tema por algum tempo, fiz uma quantidade razoável de pesquisa sobre Vasconcelos e a forma como ele pensa cinema antes de ver este Call Girl (também já vi uma boa parte do seu trabalho anterior), e respeito a sua visão, mas tinha de falar da minha, porque creio que muito do que disse acima influencia as opções (boas e más) do filme que agora comento.

o filme:

Ortografia cinematográfica

Houve coisas interessantes feitas aqui, coisas que não são comuns nos filmes portugueses, mas outras que eu achei que foram algo trapalhonas.

A sua maior falha, provavelmente, é tentar ser demasiadas coisas ao mesmo tempo. Não que não seja possível, mas não está bem resolvido aqui. Assim, temos alguém honesto, mas imoral (o seu ponto fraco), muita corrupção, e alguns temas redentores (amor?). Poderia ter sido um filme sobre sociedade (Portugal SA fê-lo há 4 anos com sucesso relativo), na América podemos pensar em filmes como ‘Wall Street’, ‘All the president’s men’ ou ‘Wag the dog’. Podemos ligar isso a uma construção orientada pelo noir? Talvez. ‘Wag the dog’ fê-lo. Aqui, temos o detective, temos a “femme”, talvez fatal. Vamos falar sobre ela:

O realizador (e creio que a vontade colectiva dos amantes de cinema portugueses) está a tentar definir a imagem da nossa rapariga. Ela tem talento, creio, ela poderá ter a imagem se bem usada, mas tem agora de ter uma personalidade cinematográfica. Até agora, o cinema deu-nos já uma grande variedade de posturas cinematográficas, é uma questão de escolher a que cola melhor com ela. Pessoalmente, não creio que ela possa ser como a Marylin Monroe, como foi sugerido aqui, misturado com a ideia de mulher controladora como, digamos, Sharon Stone representou no princípio dos anos 90. Mas sinceramente, creio que ela poderia ser a loira de Hitch, mas como morena (pessoalmente vejo uma mulher fatal portuguesa como uma morena… isto é intuição ou preconceito, não sei). Assim, por agora, eu modelaria Soraia Chaves segundo Novak, Hedren ou Kelly. Ela não poderia encaixar na tradição Hepburn-Hepburn-Roberts, nem na tradição paralela Falconetti-Karinna. Todas estas mulheres viviam da sua face, do seu sorriso, da sua expressão. Soraia valoriza-se, para mim, pelos pequenos movimentos, as acções implícitas, ela é mais Dietrich que Monroe. Mas por outro lado, consegue ter o “sexo estampado no rosto” como Hitchcock poderia ter dito. Ou talvez ela tenha sido mal retratada até agora na sua curta carreira. Vasconcelos comparou-a com Ava Gardner; seria interessante vê-la como Ava. Esperamos e vemos.

De volta ao enredo: tínhamos as sugestões noir e as falhas sociais como tema. Mas o jogo está aberto, o mistério ausente, e para além da moralidade dúbia e das reais intenções da nossa rapariga, há pouco mais para esperar aqui. Assim, o noir, que poderia funcionar, está ausente. Por noir, entendo a capacidade de colocar o espectador a partilhar a visão específica de um personagem (aqui esse poderia ter sido Ivo Canelas) e deixar o espectador saber tanto como esse personagem, mas com a sensação de que alguma força exterior, deus, um personagem superior move os cordelinhos e marioneta toda a acção, fora do nosso olhar. O facto de Canelas ter uma relação passada com o personagem de Soraia poderia ter funcionado perfeitamente nesta lógica de forças superiores, destino… o cinema americano é excelente na forma como lida com estas coisas. De facto, mesmo antes de ver este filme no cinema, tinha visto Ace in the Hole, de Wilder (um “não”? autor) e tudo isto está lá: a ambiguidade sobre o facto de Douglas estar ou não a escrever a história, e quem a está a escrever. Um filme deverá vir envolto nestas noções mais profundas para funcionar completamente. De outra forma, fica manco, como se estivesse incompleto. Essa é uma lição que podemos retirar de filmes americanos, e não compreendo como Vasconcelos a saltou (já que ele escreveu esta história).
Assim, a partir do momento que se toma a decisão de deixar o espectador saber tudo o que está em jogo, cada movimento, dentro e fora do “palco”, o interesse de seguir o filme fica-se com as actuações e a direcção. Aqui temos os aspectos mais fortes do filme, que fazem a experiência valer a pena. A última expressão na face de Nicolau Breyner parte o coração, essa capacidade que ele tem de nos contar tantas coisas apenas com uma expressão facial é algo que sempre levarei comigo para onde vá. O ângulo superior em que o plano é filmado também ajuda. E toda a direcção é bem focada, muito mais do que a linha narrativa ou o guião. A edição não é perfeita, mas é competente, Vasconcelos tem uma forma muito interessante de “desaparecer” para realçar as suas histórias e cenas específicas (aqui ele realmente é o que pretende ser) assim os seus movimentos são sempre subtis, e suficientes.

Assim, creio que precisávamos de uma escrita mais forte aqui, para levar tudo isto para um novo nível, o tipo de escrita de ‘Os imortais’, que era bem mais claro, focado, e interessante, nesse aspecto. Este tem problemas de ortografia cinematográfica, e isso prejudica parcialmente a experiência.

A minha opinião: 3/5 a representação e direcção compensam parcialmente as falhas.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve