Cristóvão Colombo – O Enigma (2007)

“Cristóvão Colombo – O Enigma” (2007)

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Memórias Ligadas

No meu livro de referências, Manoel de Oliveira tem uma abordagem única em cinema. Isso é devido a dois aspectos que aparecem aqui vivos como poucas vezes antes na carreira dele.

Muitos espectadores (especialmente portugueses) vão-se colocar numa posição gosto/não gosto baseada nas “falhas” imediatamente visíveis:- o diálogo, que é antiquado, inadequado em praticamente todos os momentos, fora de contexto, não cinematográfico na visão que temos hoje (e que já temos há muitos anos) de como um diálogo de filme deverá ser (soar?). Este diálogo explica constantemente demasiadas coisas, para dar ao espectador informação sobre aspectos desconhecidos do enredo usando dispositivos que por vezes são tão denunciados que se tornam infantis. -depois há as actuações, que muitas vezes são simplesmente horríveis, e outras mais melancólicas e sobre-dramáticas que os discursos de, digamos, “e tudo o vento levou”. Se você, caro leitor, pensa que é inteligente porque detectou tudo isto, não é. Tudo isto é verdade, e não me interessa minimamente, nem me afectou a experiência.

E não me importam esses defeitos, por dois aspectos:

o primeiro tem que ver com o sentido de posicionamento. Oliveira é um verdadeiro mestre na forma como “coloca” as coisas nos seus filmes. Ele coloca a visão, a sua câmara está a maioria do tempo fixa (nem tanto neste filme, curiosamente). Isso tem a ver com uma concepção sua de cinema como teatro filmado, mas realmente vejo aí uma grande capacidade para resumir, e contar um ambiente/diálogo/sentimento simplesmente por olhar para ele. Antonioni tentou algo semelhante na última fase da sua vida, mas Oliveira é um mestre nesse domínio. Uma nota curiosa é que aqui, o sentido de colocação visual está estranhamente (para os padrões de Oliveira) perto do que Antonioni poderia ter feito. A câmara move-se bastante e chamo a atenção para as cenas no Alentejo, os planos de estrada. Um deles, no qual o olho da câmara não está na estrada, vemos por alguns momentos essa câmara a seguir o carro. Esta forma de gravar uma paisagem que contém uma acção, que se torna fundamental para a imagem apesar de estar a ocorrer à distância é algo que Antonioni fazia tão bem… Verifiquem também a colocação dos personagens. Eles sempre começam uma cena caminhando, vindo de algures e param em determinadas posições que servem a colocação escolhida pela câmara. Assim, não se trata aqui de como a câmara encontra os personagens, mas de como os personagens servem a câmara. Logo no início temos também uma interessante sucessão de plantos que alternam entre ângulo picado e contra-picado, na praça do Comércio, Lisboa.

O segundo aspecto que me seduz tem a ver com a forma muito pessoal de Oliveira mexer com camadas de realidade, ficção, e realidade ficcionada. O topo desta exploração por sobreposições aconteceu com “Viagem ao princípio do Mundo”, que eu coloco numa lista especial de filmes que, acredito, podem mudar algo de nós depois de o vermos (e durante). Aí tínhamos o nível da realidade ficcionada (a do actor), um registo histórico (o passado político português recente) e o nível da memória pessoal de Oliveira. Aqui, ele substitui a ficcção pela história real de um casal real, e sobrepõe nesse casal a sua memória (a sua camada) pessoal. Há maior economia de meios aqui, mas “Viagem…” é de longe mais profundo visualmente, narrativamente… Vamos verificar aqui: temos Manuel Luciano (que por feliz coincidência tem o mesmo primeiro nome que o nosso realizador) e temos a sua mulher. Eles vão servir o mote para uma espécie de filme de estrada/viagem. Eles procuram as pistas que levam a uma reformulação da história da origem de Cristóvão Colombo. Apesar de se criar ao redor de Colombo uma teoria forte, também essa teoria poderá ser apenas ficção sobre uma realidade. Depois temos o terceiro nível, a terceira camada. Oliveira representa Luciano enquanto um homem idoso (e o seu neto representa-o enquanto jovem) e põe a sua mulher a representar a mulher de Luciano. O meu palpite pessoal é que, a certa altura, Oliveira estava sobretudo a rodar esta terceira camada. Assim, temos um conjunto de cenas com Oliveira e sua mulher em grande plano. Eles falam. Não me parece que estejam a representar. Penso que estão a ser eles mesmos. Tal como em Sunset Boulevard, temos constantemente a sensação de entrar e sair da realidade(s). Um destes planos merece atenção: estão ambos sentados num interior. Falam sobre as suas vidas passadas, creio que sobre as suas próprias vidas pessoais, não as vidas que estão supostamente representando; ela proclama o seu amor por ele, ele responde que a ama, e beija-a na face. Ficam então os dois envergonhados como dois adolescentes. Ele tem 99 anos. Ela menos 10 anos. Esta é com certeza uma das mais intensas cenas de amor na história do cinema, e o ponto máximo deste bom filme. A cena sozinha faz a experiência valer a pena.

Assim, superficialmente (para mim), o filme é sobre o recontar de uma biografia conhecida mundialmente, seguindo com esse objectivo as vidas do casal que estudou o tema. Em análise mais profunda, o filme fala de “ligações”. Trata de ligar assuntos, temas, lugares e, especialmente, memórias. É por isso que a história fala de ligar pontas soltas, temas históricos mal explicados. Os planos separados estão também interligados. É por isso que temos um plano que observa o mar em Dighton que vem a corresponder a um que observa o Atlântico no Porto Santo; ou planos que olham através de janelas em vários lugares ao longo da viagem. Num plano em particular, uma ponte é atravessada no Alentejo, uma ponte de ferro, e é filmada de uma forma de todo semelhante ao que Oliveira fez com a ponte D.Luiz no “douro faina fluvial”, isto é a sua própria memória cinematográfica. Visão… Memória, Amor, Luciano ama a sua mulher e a sua pesquisa, Oliveira ama a sua mulher, e o cinema…

A minha opinião: 4/5 se tudo isto tivesse uma maior unidade, e as actuações/diálogos não fossem tão mal “atirados” em alguns momentos, este filme poderia mudar a sua imaginação. Ah, e a música é memorável.

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8 Responses to “Cristóvão Colombo – O Enigma (2007)”


  1. 1 cinehighlife Janeiro 16, 2008 às 12:38 pm

    Obrigado pelas palavras que deixaste no blog! Li a tua crítica que achei absolutamente bem construída e interessantíssima – como todas as críticas deviam ser! Vê também se apareces nas sessões dos cineclubes das faculdades da UP. Hoje, se puderes, vão passar o “Nanook” em Belas-Artes, às 18h. Abraço

  2. 2 Manuel Pinto Barros Janeiro 18, 2008 às 11:38 pm

    Belíssimo texto.
    Concordando com a grande parte e até com a relativa “classificação” final.
    Neste caso específico nem considero os actores o grande problema, é anti-natura como a câmara de Oliveira, não procura a naturalidade, 1º porque não quer e 2º porque nao pode.

    LISBOA anos 60… PICADO versus CONTRA-PICADO genial

    NOVA YORK atravessada pela NÉVOA magistral

    Magnífico enigma, magnifico testamento histórico (AUTOBIOGRÁFICO???). E quererá aqui,OLIVEIRA, encerrar a obsessão pela história utópica do seu Portugal?

    Cumprimentos

  3. 3 ruiresende Janeiro 23, 2008 às 6:23 pm

    O “Nanook” é um filme que ainda não vi e tive mesmo pena, mas estava de viagem e só voltei hoje, pelo que foi impossível passar em belas-artes. obrigado pelas tuas palavras também, é bom sentir-se que se é lido e ainda melhor que se é (às vezes) apreciado.

    Sim é verdade que a câmara do Oliveira não procura ser natural, mas eu pessoalmente acho que poucas câmaras o são e as que procuram sê-lo falham mesmo que tenham outras qualidades. E sim, foi um aspecto que não referi no comentário, mas esta Nova Iorque é fantástica, é inédita e vale mesmo a pena ver, a nova iorque da névoa que foge da impossibilidade da sua recreação com o orçamento disponível e a nova iorque actual.

  4. 4 Hugo Ramos Alves Janeiro 23, 2008 às 6:28 pm

    Só me custa concordar com a parte do teatro filmado. Dá vontade de ir buscar muito do que se dizia contra o casal Straub-Huillet e dizer que aqui a palavra tem o tratamento merecido e que cada sílaba é devidamente entoada. Algo que, por exemplo, também o JCM fazia com mestria.

    Mas depois há aquele imiscuir de várias realidades que nos deixa semi-atónitos. Isso sim é puro génio, tal como aquele nevoeiro ou a banda sonora. Tudo isto “escondido” pela austeridade que se conhece ao cineasta. Dificilmente não se gosta. Acho eu…

  5. 5 ruiresende Janeiro 23, 2008 às 6:46 pm

    sim, tens razão quando dizes que a palavra tem o tratamento merecido. Foi o Oliveira, creio, quem terá dito (não sei se citando) que as únicas diferenças entre o Homem e o animal são a mão e a palavra. a capacidade de fazer (criar) e de comunicar. No entanto, para mim, não sei até que ponto isso não vincula mais o cinema do Oliveira ao teatro, onde a palavra também tem uma importância fundamental. Por isso a cena inicial do “je rentre a la maison” é uma peça de teatro filmada.

    As sobreposições são o que me seduz e o que mais procuro nos filmes do Oliveira dos últimos 20 anos. Creio mesmo que é o maior alimento temático dos filmes dele, mesmo quando ele os disfarça com temas vários. Nem sempre resulta, mas quando resulta, é qualquer coisa…

  6. 6 Miguel Domingues Janeiro 30, 2008 às 10:10 am

    “Eu tenho a opinião que uma grande parte dos bons filmes têm pouco que ver com o que aparentemente contam. Provavelmente este é um deles” – escreveste no meu tasco.

    Concordo plenamente e creio que, no caso da minha relação com este filme, o problema é um pouco esse. Como não gosto do que está em primeiro plano, não gosto do que está em segundo.

    Cumprimentos,
    Miguel Domingues

  7. 7 joe Maio 25, 2009 às 4:04 pm

    I know only of his country that he was a great, great ..

    boboca !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


  1. 1 pelos filmes, Manoel de Oliveira « 7 olhares Trackback em Dezembro 11, 2008 às 7:08 pm

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve