Eastern promises (2007)

“Eastern promises” (2007)

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um beijo a mais, um olho a menos

*** Este comentário pode conter spoilers ***

É preciso separar o que foi feito aqui da forma como foi feito. Pelo que já vi, Cronenberg é sempre suficientemente competente para entregar obras bem trabalhadas, mas ultimamente ele não tem conseguido alimentar a minha imaginação visual. Suponho que em parte será preguiça intelectual (a idade a revelar-se?) e em parte o conforto de confiar em fórmulas.

Vejo-me como um principiante no mundo da gramática visual e da construção narrativa, mais ansioso por aprender do que experiente para comentar. Assim uso os comentários sobre filmes como forma de marcar o que compreendi em cada duas horas de filme que consigo ver, e assim tentar aparender mais. Cronenberg já me injectou várias vezes muita cor no meu mundo pessoal dos filmes, mas aqui creio que falhou. Isso acontece porque neste momento ele está tão agarrado à convenção cinematográfica, às produções de alto custo e às distribuições para as massas, que parou (pelo menos para já) de ponderar o que pode fazer para juntar imagem e narrativa em formas originais. Esta é basicamente a razão pela qual este filme, apesar de ser uma obra bem montada e sólida, não ter funcionou bem para mim.

Há um mundo muito específico sublinhado aqui, é o da imigração (e sobretudo máfia) do leste europeu. Esse mundo está perfeitamente definido nos seus limites e nas suas regras, e está inserido num outro mundo que provavelmente conhecemos melhor, o de Londres. Londres não é definitivamente assumida, não temos planos localizadores tão predeterminados, nenhum cliché britânico, podemos colocar a história num local diferente se não conhecermos suficientemente bem Londres, ou se não a conhecermos de todo. Até agora, é Cronenberg. Ele cria este “mundo dentro de um mundo” com bastante frequência. Mas normalmente ele deriva entre esses mundos, o da imaginação e o da realidade, as diferenças culturais, etc. Aqui não. Depois deste contexto estabelecido, temos uma história, quase de ópera, linear e clara história, e neste aspecto tudo se resume ao fino interesse de saber o que o personagem de Mortensen realmente quer, e o que acontecerá a Naomi Watts e a sua família. Não há grande intensidade cinematográfica ou perspectiva especial, temos “apenas” uma fotografia competente, edição e actuações (temos um descendente de dinamarqueses, um francês, um alemão e uma australiana a representar russos ou descendentes deles!)

Duas cenas específicas foram a última palavra e a confirmação de que não assistia a um filme do realizador de Crash e ExistenZ, mas trabalho menor de alguém que conhece o ofício, mas não quer realmente aprofundar os limites da sua imaginação mais: as cenas de que falo são o pacto entre Cronenberg e Hollywood: temos o desnecessário, aveludado e inútil beijo entre Watts e Mortensen, e temos um olho a ser arrancado na sauna quando Mortensen se arrasta para a sobrevivência, numa altura em que o dono do olho já parecia morte e ressuscita ao jeito dos maus filmes de terror, para assustar a audiência e extender a acção (que já agora foi exemplarmente conseguida antes deste momento).

A minha opinião: 3/5 o filme está bem montado, mas não há grande conteúdo ou tema visual (cinemático) para se apreciar.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve