Houve uma vez dois Verões (2002)

“Houve uma vez dois Verões” (2002)

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mundo auto-explicativo

Interessa-me muito o trabalho de Jorge Furtado. Ele é uma das mais inteligentes mentes cinematográficas a trabalhar no mundo hoje. Ao mesmo tempo ele é provavelmente um dos mais, não subestimados, mas desconhecidos criadores. E há algo especialmente interessante sobre ele. Em 1989 ele realizou uma curta muito celebrada, “Ilha das Flores”. Esta funcionou como um verdadeiro manifesto para o seu cinema (e o de outros). São intenções concentradas. Adoro esses trabalhos, quando os realizadores indicam um caminho, para ser explorado por eles ou por outros (Hitchcock fê-lo com, na minha opinião, 3 projectos diferentes, Rope, Vertigo e North by Northwest). Furtado fê-lo com Ilha das Flores. E influenciou toda uma geração de realizadores de Porto Alegre, Brasil. Este pode não ser o ramo mais conhecido do cinema brasileiro actual (esse seria o que Salles conseguiu publicitar). Mas para mim merece muita atenção.

Aqui temos a primeira longa de Furtado. E a sua fraqueza provavelmente virá daí mesmo. Os seus films (curtas e longas) contém um mundo diferente. Nesse mundo temos simultaneamente:

a) algo que acontece;

b) a explicação em detalhe do que está a acontecer (e ligado a isso o máximo de elementos possíveis exteriores a esse mundo);

c) um sentido de ironia e auto-crítica (e como consequência auto-consciência) desse mesmo mundo acontecendo em frente a nós;

Assim, tudo está construído com auto-referência, e sempre com inteligência. Onde penso que este projecto particular tem muitas fraquezas é no facto do seu pensamento silogístico não ser aqui tão inteligente e consequente com era em, por exemplo, Ilha das Flores. Aí tudo estava no seu lugar perfeito, todos os silogismos estavam perfeitamente justificados, mais tarde ou mais cedo, e tudo encaixava. Obviamente a forma curta ajudava a este desenvolvimento coerente. O tema era também bastante significativo em “ilha…” . De qualquer das formas, este é o mundo de Furtado, e apesar de este não ser o seu trabalho mais forte (ou mesmo a sua melhor longa) é, ainda assim, merecedor de um visionamento, apesar do nível de actores horrivelmente amador e alguns aspectos pobres da produção.

Apesar de tudo, se puder, veja “Ilha das Flores” para compreender Furtado antes demais, e quando acabar de ver todos os seus filmes, volte a ver Ilha das Flores. Ah, e verifique-se “Mon oncle d’Amérique” de Resnais, que mostra onde este tipo de pensamento interligado começou na escrita fílmica, pelo menos nesta forma específica. O trabalho do francês não é tão fluído ou irónico como o de Furtado, mas ele domina a forma longa melhor do que Furtado fez aqui.

A minha avaliação: 3/5, apesar de tudo, vale a pena ver.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve